sexta-feira, setembro 10

Arca D´Água


Há nomes mágicos, dizias tu, falando-me de lugares, pessoas, coisas: berlinde, Sara, Abril, concha ou jardim. Eu acrescentava: arca d`água, lembrando-me de um parque, altos plátanos, a continental cidade do Porto, azulejos amarelos entre o granito enegrecido pelos fumos.
As «ilhas» fugiam, numa paisagem de corredores estreitíssimos, celhas com a roupa da barrela, crianças e galinhas esgravatando a terra, humidade onde crescia o bolor e trepavam cogumelos. Arca d`Água ficava longe do centro e do rumor dos cafés. Alguém chorava junto a um dos plátanos.
Era um lugar de encontros clandestinos onde se trocavam pequenos jornais e palavras a meia-voz; onde se inventava a esperança desses dias. […]
Há nomes mágicos, insistias. Eu voltava a falar-te na Arca d´Água, como se pudesse, com qualquer abracadabra, atrair o espírito do lugar, o génio da lâmpada, o «abre-te Sésamo» para, desta vez, sair da caverna e ver a Luz.
Na ampla praça os plátanos moviam-se num soneto de Sena. As lâmpadas acendiam-se mais perto, rasgando o nevoeiro que rosnava nos telhados e já chegava às soleiras das portas. Era outro Dezembro, outra praça, outra vontade. […]

Eduardo Guerra Carneiro in Colectânea de Poesia sobre o Porto, Dom Quixote, 2001

imagem: Teresa Teixeira

[para ti, R., com toda a ternura de que sou capaz.
hoje.]

10 Comments:

João Menéres said...

Quando casei, em 1964, fui viver para Paranhos, não muito longe desse lindíssimo Jardim. Na altura, ainda mais bonito, aos meus olhos.
Os filhos, três meninos, apreciavam a liberdade de que aí dispunham.
E havia os cisnes e as grutas artificiais...
Era um deleite.
O carro, então, arrumava-se no exacto sítio da nossa vontade.
Também na Rua do Covelo, defronte da Escola Filipa de Vilhena, o carro até ficava à porta, se chegássemos depois da garagem (por baixo) fechar.
Na Primária, o mais velho fez as suas grandes e duradouras amizades.
A caminho de Arca d'Água passávamos pela casa do ilustre Dr. Vitorino Leão, médico que passou a ser o nosso e até o dos meus Pais...
Um filho é um dos amigos do meu mais velho!
Tudo isto me veio à memória com a imagem que a Teresa Teixeira fez e com o excerto do EGC.
Obrigado, MARTA!

Um beijo com quarenta e tantos anos de vida.

Anónimo said...

Tão lindo,Marta.
beijinhos
Cris

Claudia Sousa Dias said...

que giro.

Ia jurar que era um texto da autoria de Marta Vaz.

O teu talento é sempre uma provocação, como diria Márai. Assim como o teu inquestionavelmente bom-gosto onde não cabem lugares comuns.


csd

Zaclis Veiga said...

tão lindo. também pensei que era teu.

Marta said...

Obrigada por essa partilha, João :)
um beijo.



Cris, Claudia, Zaclis
[num dia como o de hoje ainda sabe melhor a vossa amizade.
beijos,muitos, marta]

alberto quadros said...

Este senhor é daqueles que escrevem prosa poética, não será dos que oferecem poesia prosaica. Atrevo-me a oferecer-lhe uma quadra minha:
Agradeço a quem me ensina
Nesta idade bem madura,
A temperar a rotina
Com o sabor da aventura

Funes, o memorioso said...

Neste jardim, Antero de Quental de Ramalho Ortigão travaram um célebre duelo de espadas, por causa de António Feliciano de Castilho, a quem o primeiro tinha chamado cego.
Tão belos como a superfície da Arca d'Água são os seus subterrâneos, que podem ser brevemente vistos aqui.

Funes, o memorioso said...

Ou, ainda melhor, aqui.

Marta said...

obrigada e um abraço, estimado Alberto.

Marta said...

do duelo, prof. Funes, eu sabia...via Camilo Castelo Branco...

o que não sabia - tb n~~ao tinha procurado, é certo - é que esta deliciosa viagem estava no yt.
adoraria fazê-la.