quarta-feira, setembro 29

o filme impossível

A obra mais famosa de toda a literatura portuguesa, traduzida em 37 idiomas, é o "Livro do Desassossego", desse outro eu de Pessoa chamado Bernardo Soares. Um livro perfeito porque imortalmente imperfeito. Sem princípio nem fim, sem leme nem rumo, um livro inclassificável e invisível como os deuses, nascido dos destroços do céu, feito da temperatura das nuvens e dos rasgões da alma - fragmentos contínuos que conjuram a morte e apagam o tempo. Pessoa sabia que o "Livro do Desassossego" o manteria vivo, depois. Permanecemos na memória dos que nos sobrevivem porque não terminámos - sobra sempre o que não chegámos a dizer ou fazer. Somos retalhos de temas, mágoas e iluminações. Não uma colecção de momentos - nesse caso seríamos esquecíveis como fotografias de viagem. Tudo nos empurra hoje para essa ideia de viagem permanente: sofremos um desgosto, gritam-nos que viajemos, para levarmos para longe o nosso problema e não incomodarmos o rame-rame alheio. Momento - eis o que chamamos às nossas grandezas e às nossas falhas, a essa descontinuidade anímica, agora tão em moda. O "Livro do Desassossego" é o antilivro de viagem: Pessoa chegou ao âmago do Universo sem sair de Lisboa.

O "Livro do Desassossego" tem silêncio, ruído, tédio, sexo, angústia, felicidade. Abrimos uma página ao acaso e encontramo-nos lá inteiros, tenhamos 16 ou 30 ou 70 anos. Porque Pessoa realizou essa que é a viagem difícil, pouco praticada e muito desaconselhada: pôr-se no lugar dos outros. Ser cada um dos outros. Toda a identidade advém dessa viagem dura, ousada, que é a da entrega radical: não há outra.

Não há uma ordem no livro como não há uma história na nossa vida: há nós de dor e de prazer que vêm e vão, como ondas de um mar imprevisível, e encontros desencontrados que se potenciam fora de toda a lógica das historinhas que somos instruídos para seguir. Uma vida não é uma história nem um conjunto de histórias - nunca tem um fim, deixa sempre pontas penduradas, sonhos a rodar na cabeça dos sobreviventes. As histórias parecem mudar pouco e repetir-se muito porque raramente são vividas na sua intensidade. É essa a tarefa da arte - de qualquer arte: buscar mais verdade, uma luz mais exacta, sob o horizonte da verdade visível. O resto é treta, empate, bufonaria de quem foge de entender a mensagem da cova e do caixão.

Eduardo Lourenço afirmou que Pessoa se tornou a "máquina de rezar" da cultura portuguesa - e, em simultâneo, maior do que Portugal. João Botelho ousou criar o filme impossível a partir deste livro impossível que se tornou o mais real dos livros portugueses - o mais lido, o mais amado, o mais inspirador. E o "Filme do Desassossego" soube honrar o livro que lhe deu vida: arrastou o texto para o futuro que é ainda o seu território de origem, criando um Bernardo Soares fora do tempo e fazendo de Lisboa a cidade de todas as cidades, com prédios e monumentos cubisticamente empilhados, substituindo-se ao céu - e com vadios, boémios, funcionários tristes, casais, crianças, mulheres intensas, fadistas, a voz de Caetano Veloso (que criou uma canção para o filme) nas entranhas do metro, Lula Pena, Carminho e Ricardo Ribeiro cantando na rua - e Catarina Wallenstein, numa interpretação sublime, encarnando um texto que nos fala dos passos que deve seguir "quem faz do sonho a vida".

Nunca Lisboa foi filmada de um modo tão inesquecível. Cada imagem de João Botelho é uma pintura - ele filma como Caravaggio pinta, com o mesmo conhecimento carnal da densidade das luzes e das sombras, e neste filme essa semelhança é potenciada pela subtil e intensa paleta do rosto e do corpo de Cláudio Silva. Mas não caiu no engodo fácil de fazer um filme 'bonitinho', desvirtuando o vendaval lúcido e alucinado que é o livro de Pessoa.

A Floresta do Alheamento de Bernardo Soares transfigura-se numa ópera dramática (de Eurico Carrapatoso) encenada em plena serra de Sintra - ou não fosse Fernando Pessoa o rei da nossa Baviera, tema sobre o qual Eduardo Lourenço escreveu um livro prodigioso. Este filme desassossega-nos coração, cabeça e estômago, obriga-nos a pensar tudo de novo e a chorar o velho nada das lágrimas reprimidas - ou seja, a sermos mais livres. É para isso que servem a literatura, a música e o cinema.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

[Texto publicado na edição da Única de 25 de setembro de 2010 ]

3 Comments:

Carla Farinazzi said...

Marta, com que prazer li esse post. Que delícia é Pessoa... E o texto evidencia isso.
"Uma vida não é uma história nem um conjunto de histórias - nunca tem um fim, deixa sempre pontas penduradas, sonhos a rodar na cabeça dos sobreviventes."

Pessoa com certeza ficou para sempre.
Beijo, obrigada por sua iluminação em postar esse texto.

Carla

Marta said...

Olá Carla,

Inês Pedrosa está publicada no Brasil. Procure pelos seus livros; irá gostar. estou certa :)
Esta é mais uma deliciosa "crónica feminina".

bjo

Djabal said...

"Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas comprimidas?"

Esse é o trecho de hoje, daquele que - não fosse ousadia para um ateu - poderia ser chamado: o meu livro de orações.
Desde a primeira vez que o li, ele jamais me abandona, todo dia, ele ilumina um canto, apaga outro, acende uma chama, assopra uma vela. Leio cada tópico como uma drágea. É o melhor melhor companheiro.
Quem me agarrou no seu post, foi aquele olhar do próprio Bernardo ao contemplar o vazio do casario de frente. Nem havia lido o título. Agora ao filme, espero que não demore a passar por aqui.
Beijos e muito obrigado. Haja bem.