sexta-feira, setembro 24

O género epistolar em Vergílio Ferreira


[a propósito de cartas na literatura...andava eu aqui em pesquisas e encontrei este trabalho. gostei de ler, só porque Vergílio Ferreira é, para mim, um escritor de eleição. Cartas a Sandra e Para Sempre continuam, apesar do tempo em que os li, muito presentes]


«A utilização da carta como estratégia romanesca em Vergílio Ferreira poderia levar-nos,se a ocasião o permitisse, a problematizar a função deste género de discurso num quadro mais amplo - o da literatura portuguesa contemporânea, uma vez que uma parte significativa da literatura dos nossos dias tende a aproximar géneros consabidamente literários (refiro-me aqui sobretudo a um deles - o romance) de géneros tradicionalmente não literários ou, pelo menos,de géneros cuja inserção no campo literário é frequentemente ambígua e sujeita a oscilações de vária índole - conceptuais, terminológicas ou outras.
Em Vergílio Ferreira, o género epistolar percorre vários textos e textos de índole muito diversa, como demonstrou já Rosa Goulart num texto dedicado precisamente a esta questão, mas o interessante é que neste autor a atracção pelo domínio da epistolografia coincide frequentemente com o seu universo ficcional: este tipo de registo epistolar "ficcionalizado" ocupa um lugar preponderante no conjunto da obra do autor, situando-se no próprio núcleo da intriga romanesca, como em Cartas a Sandra, ou traçando para esta mesma intriga uma espécie de moldura epistolar que enforma e contextualiza a história que o narrador vai contando, como
ocorre no romance Em nome da terra. Outros casos há em que na ficção de Vergílio Ferreira avultam mensagens epistolares com uma posição absolutamente marginal em relação ao essencial da intriga. Neste último caso, a inclusão num romance de um texto de filiação epistolar não é em nenhum sentido problemática porque, constituindo o registo epistolarclaramente uma excepção no contexto romanesco que o envolve, é completamente absorvido por esse tecido ficcional que o acolhe.
Como quer que seja, e independentemente dos problemas que a sua utilização pelo
romance possa suscitar, o texto epistolar é sempre em Vergílio Ferreira um modo de
comunicação assumidamente dialogal que não anula inteiramente a expressividade
comunicativa do monólogo. Como o próprio Vergílio Ferreira afirmou, numa obra também elasujeita aos protocolos enunciativos da narrativa epistolar, Carta ao Futuro, «a epistolografia é a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. »
Isabel Cristina Rodrigues
Continua aqui.

1 Comment:

Carlos Azevedo said...

Em mim continua presente o "Até ao Fim", um dos livros portugueses que mais gostei de ler - e um livro único.
Beijo.