segunda-feira, setembro 6

Um barulho que se mantém enquanto alguém o lê

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Os jornais, por via das notícias, produzem um barulho fixo. Um barulho que se mantém enquanto alguém o lê. Mas na notícia acontece isto:os sofrimentos individuais e as alegrias íntimas desaparecem, tudo se torna propriedade colectiva: o jornal como teoria geral da inexistência do indivíduo. Só existe pessoa-acontecimento se existir pessoa-espectador: a privacidade absoluta, verdadeira, a individualidade pura, não são acontecimentos, são não-acontecimentos, isto é, à letra: a individualidade (a de zero espectadores) não acontece. Quase que se poderia afirmar que a existência individual e privada será uma invenção, precisamente individual. Como provar a existência de momentos puramente íntimos, não testemunhados por nínguém, a não ser pela consciência do próprio? Não podemos provar, só acreditar. Acredito que o outro existe enquanto indivíduo, acredito: crença; não sei: não é um conhecimento. Mas de mim próprio sei: conheço os meus momentos individuais, e apenas posso esperar que os outros acreditem na existência de tal coisa. Toda a parte da nossa vida que é testemunhada constitui o modelo do jornal: vejam o que acontece ou aconteceu. E só existe na História. E o que fica de fora são os indivíduos. [...]

Gonçalo M. Tavares in Um Homem: Klaus Klump, pag. 115, Caminho, 2003
imagem: Crete. Chania. 1962. Man reading newspaper. © Costa Manos/Magnum Photos

1 Comment:

Anónimo said...

o seu bom gosto em fotos é impecável... imagino que sabe o destino desta foto... desta gosto especialmente do grão e do tema... caramba! é isso mesmo: "a privacidade absoluta, verdadeira, a individualidade pura, não são acontecimentos, são não-acontecimentos, isto é, à letra: a individualidade (a de zero espectadores) não acontece." há anos que tenho andado com esta ideia a bulir dentro de mim: um não-acontecimento ser igual a individualidade pura... sempre existe em nós (e nesta nossa condição humana) o desejo do "outro". porque o "outro" autentica a nossa existência. sem o "outro" não existe o "eu". tal como sem o "mal" não existe o "bem". e não falo apenas de conceitos telúricos, mas de conceitos epistemológicos, passíveis de nos levar por um caminho... o "outro" como garantia de individualidade de cada um de nós será sempre um "parasita"... ou seremos nós o parasita do "outro"!? não sei. sei que acontecemos quando somos extensão na pessoa do outro lado da mesa... na foto o jornal é companhia suficiente. todavia, eis a cadeira vazia: convite eterno...
bjs Marta
filipe