sexta-feira, setembro 17

Susannah McCorkle por Carlos Azevedo


[...] escrever sobre o quê?

Optei por escrever um curto texto sobre uma das minhas grandes paixões: a saudosa cantora Susannah McCorkle. Poucas cantoras me acompanharam tanto nos últimos anos como McCorkle: tenho todos os discos de estúdio que gravou, bem como as colectâneas publicadas pelas suas editoras, e raramente fico mais do que um dia sem ouvir pelo menos um; frequentemente, ouço diariamente mais do que um, ou passeio por vários.

The People that You Never Get to Love, de 1981, foi o primeiro disco de McCorkle que comprei, quando frequentava a universidade, nos anos 90 - o jazz era já, até mais do que hoje, o género musical que mais interesse me suscitava. A voz de McCorkle, apesar de ser um contralto extremamente sensual, era um instrumento modesto, sem grande amplitude, mas como o seu ídolo, Billie Holiday, McCorkle sabia retirar dela o máximo, através de ligeiras modulações e do enfase dado a certas palavras - ninguém interpretava uma letra com a precisão de McCorkle.

Susannah McCorkle (1946-2001) nasceu em Berkeley, na Califórnia, onde passou a infância e a adolescência. Estudou Literaturas Modernas na prestigiada Universidade da Califórnia. Nos anos 60 viajou para a Europa, onde viveu alguns anos. Em França apaixonou-se pela voz de Billie Holiday, cantora que passou a emular, ouvindo os seus discos e imitando o seu estilo – haveria de criar a sua própria voz, mas Lady Day seria sempre uma referência. Gravou os primeiros discos em Londres, tendo regressado aos Estados Unidos no final dos anos 70. Fixou residência em Nova Iorque, onde viveu até decidir por fim à própria vida, a 19 de Maio de 2001. Ao longo da sua carreira gravou 17 discos, alguns dedicados integralmente a um compositor ou letrista (Harry Warren, E. Y. Harburg, Leo Robin, Johnny Mercer, Cole Porter, Irving Berlin, George Gershwin). A música brasileira está presente em muitos dos seus discos, e é absolutamente fascinante ouvi-la cantar em português, sem sotaque, sendo quase sempre imperceptível que não se trata de uma cantora brasileira.

Enquanto escrevo, ouço Sabia, integralmente composto por canções brasileiras, gravado por McCorkle em 1990, e penso nas palavras sábias de Agustina Bessa-Luís: «Tanta coisa o naufrágio do tempo deixa na praia onde andávamos de pés nus, sem nos magoarmos. Magoamo-nos depois, no cristal das ondas altas.»

Carlos Azevedo

[um texto que adorei ler e fui buscar AQUI]

2 Comments:

Anónimo said...

... uma ilustre esquecida... vou reparar a minha falha pessoal... obg Marta pela sugestão.

Carlos Azevedo said...

Marta, mais uma vez, muito obrigado pelas tuas generosas palavras - e, claro, pela ligação. :)
Beijos.