terça-feira, setembro 21

aquilo de sentir muito


ainda há dias jurava a pés juntos, jurava é só uma maneira de dizer, que eu não gosto de juras, mas dizia-te com a alma inteira que não são as flores que correm atrás das borboletas. de qualquer forma, eu estava quieta. estou quieta. e as flores não param de voar. já não sei mais que faça. por isso, agora, sou eu a pedir-te que penses comigo. em voz alta, novamente, está bem? só para que soe verdade. para que não pareça eu a imaginar. recapitulemos: aquilo do amor. do amor não. que exagero. aquilo de sentir muito. prontos, está bem: as emoções, o teatro onde decorrem: o corpo. nada a ver com a alma. nada. um beijo a pousar na pálpebra dos olhos. muito suave. e o efeito disso no mundo. faz de conta. como se estivessemos a brincar com as palavras. eu sempre achei que podíamos brincar com elas. agora não. nem pensar. acendem-se. inventamos palavras e depois acontecem-nos. nunca perguntes: como são os teus dias? se não quiseres mesmo saber. e a pessoa tem mesmo de existir. não vale imaginar. é que um dia acordas com essa pergunta nos lábios, como se fosse uma urgência. até as palavras cruzadas me fazem impressão, agora. não as cruzo mais. juro que não. juro é só uma maneira de dizer, já sabes.
novos paradigmas. é sempre assim. um cientista - os cientistas sociais, por exemplo - desenvolvem teorias, correntes. e, depois, vem alguém e diz que aquilo tudo já não é verdade. epistemologia pura. mas faz-me mais impressão quando sou eu própria a desenvolver teorias, algumas, cristalizadas em convicções, fundas, até, e, depois, num ápice, já nada é verdade. mais grave: nem sequer percebo como acontece. como estou para aqui a sentir muito a sentir tudo incrédula, mais incrédula do que um ateu em deus. e mais quieta do que um barco em terra. sim, porque agora já não é seguro dizer que as flores estão quietas.
voltemos ao início: aquilo do amor. do amor não. que exagero. aquilo de sentir muito. falavas-me das memórias pelas ruas de granito, à beira rio e das saudades e eu dizia-te que sim, as saudades, que percebia bem. e, afinal, mais uma vez, procurei dentro dentro de mim, fora de mim e nada. das minhas saudades sem memória, não entendo nada. das tuas sim, são povoadas. na história universal das saudades nada remete para que se sintam saudades assim. nenhum link para essa janela.
sabes que mais? vamos parar aqui esta conversa. estou furiosa com as flores e comigo e com com Bach. ah! como estou furiosa com Glenn_Gould_Bach_sinfonia_no_2_in_C_minor.
as palavras acendem-se. acontecem-nos. e as flores andam por aí atrás das borboletas como se nada fosse. é tão absurdo que, hoje, não te consigo explicar mais nada. sinto muito. só isso.
imagem: Leila Pugnaloni

22 Comments:

Anónimo said...

Marta,
Pois eu não fiquei nada furiosa,aliás saio daqui sorrindo. Adorei o texto, a flor da Leila (será que voa? rsrsrs) e a música de Bach que não conhecia e fui ouvir.
Obrigada é um gosto ler as coisas suas.

cs said...

E no fim de ler encostei-me na cadeira, deixei cair a cabeça e fiquei a olhar o tecto vazia de qualquer pensamento.
:)

IMaria said...

um texto bonito. uma flor que me voa na alam.

Anónimo said...

Vês, porque é que publicas tantos textos de outros autores?
(gosto de 1 em 1000)
Os teus são muito superiores!
Vou perguntar ao É se as flores andam, correm ou voam...
E isso do "sentir" , é muito complicado!!!!!
:)

K said...

A impressão que fica é de encantamento, de espanto, de interrogações…e um bocadinho de fúria, também! Os teus textos são sempre uma surpresa e que me deixam muito feliz! Feliz de te poder ler!! Para ser sincero, não digo nenhum exagero, adoro ler o que escreves! Aqui, neste planeta, em ti, há mais que vida….é qualquer coisa que faz sentir muito…

Beijo

Anónimo said...

Na verdade Marta o que eu gostava mesmo era de que pudéssemos conversar sobre tantas questões que este seu post levanta.Às vezes deixa-nos aqui textos que nos fazem sorrir o dia inteiro e hoje parrei para lhe dizer obrigado Marta, por este.
Francisco CB

Marta said...

obrigada, Anónimo, mas gostava que, ao menos, deixassem o nome.

CS,
...sei tão bem como é olhar o tecto, assim...obrigada :)

obrigada Maria.

Paulinha :) :) :) :) eu sabia que tu irias dizer qualquer coisa do género...e sim, pergunta ao É. ele, do alto da sua imensa sabedoria, no esplendor dos seus 5 anos de idade, vai dar-te respostas fabulosas!
bjo

K. querido K.
um dia ainda vou compreender.
bjo

Olá Francisco CB,
já há muito tempo que não parava, de facto :)
eu tb, tb ficava para aqui a conversar...
um abraço para si, para a Inês e para as crianças.

PAS[Ç]SOS said...

Marta, passei em busca do 'outro' mas fiquei aqui preso. Aproveitei que estas palavras não se movem e tento agarrá-las. Mas... não consigo. Mesmo estáticas, voam! Que me importa se as flores correm [lindo o desenho da Leila!] ou se as borboletas ganham caule, folhas, pólen?... Foram as palavras que me seguraram, como se me tornassem granito preso à leitura. E quando chego perto do fim, já sinto saudades. Que bom é ler assim, quando já se sentia saudades. Dessas que não se entendem. Mas se sentem. Muito.
E será que se explicam?...

Marta said...

pas[ç]sos,

obrigada.

o desenho da LEILA é um encanto, sim. muito muito muito ;)

explicar?
será bem mais fácil explicar o coração das estrelas, do que explicar certas saudades. bem mais fácil.

abraço :)

sem-se-ver said...

«inventamos palavras e depois acontecem-nos.»

por isso é que a 'epistemologia pura' claudica perante a ontologia.

enfim, não interessa: interessa sim que gostei muito deste seu texto.

obrigada.

Marta said...

...obrigada eu, sem-se-ver :)

e interessa sim, porque eu também concordo que claudica.uma ontologia das flores, talvez me solucione parte da questão. vou procura-la.

MafaldaBranco said...

Querida M,

tinha tanto que ao pé do que escreveste parece tão pouco para te dizer... Sabes, eu acho que as flores às vezes também vão atrás das borboletas, sim. E que isso não faz mal nenhum. Porque é que o mundo tem que ser como o conhecemos ou como nos dizem que é? Porque é que não pode haver uma flor que também voe, de mão dada com uma borboleta?... :) E o amor, sim. As memórias. As saudades. A vida. O que se viveu e o que se deseja viver sempre, nem que seja só nessa memória tão doce, tão boa, tão plena. Porque às vezes as memórias podem preencher uma vida. Nisso acredito. São poucas as flores que voam e muito menos as borboletas que lhes dão a mão nesse vôo aparentemente impossível (do que depende o possível senão de cada um de nós?...), mas existem. E quando se encontram, querida M, vêm os temporais e com uma força destruidora podem até conseguir separá-las fisicamente, mas não à alma. Isso nunca. Porque as flores e as borboletas também têm uma. E pode ser tão grande que nela caiba toda a vida um único amor.

Gosto muito de ti, já te disse hoje?...

Um beijo com ternura!

Fada (aquela que acredita nestas maluqueiras todas... ainda e espero que sempre!) :)

sem-se-ver said...

(nem precisa, já que falou do coração das estrelas :) essa a ontologia que lhe proponho)

Anónimo said...

Sentes cada palavra. É esse o valor da tua escrita... um valor incalculável.
Sublime :)
SM

Marta said...

puxa! novamente, SM :)
assim, fico mesmo sem palavras!
obg.

C. said...

Querida Marta,

----hum......-----, pois, é que.....e só pra dizer que......, bom, é que dito assim......., na verdade, essas palavras que...... e as flores, ai as flores. E as palavras, ai as palavras......

I'm speechless.

Beijinho grande por este post.

Marta said...

querida C.

tanto.♥♥.

beijinho de fiquei feliz, agora.

Marta said...

querida Mafalda,

havemos de conversar muito...

olhos nos olhos.

ternura, marta

Zaclis Veiga said...

querida...
por aqui há borboletas tentando se vestir em flor, buscando no solo e nas raízes matar a saudade da terra, da árvore, das pedras, dos amores (tantos e intensos)
... e o tempo, ah...
o tempo que demora em passar e que passa tão depressa, que queima por dentro e que sopra em meus olhos para secar o rio que desagua de mim na urgência silenciosa da saudade.

è tão lindo te ler. :)

Marta said...

tu é que és linda, Zaclis querida:)
saudades

Anónimo said...

Que coisa mais extraordinária de se ler, ainda por cima quando se cai aqui por acaso.
Muito obrigada, pois saio feliz.
Clotilde

Marta said...

Obrigada, Clotilde :) :) :)
e que bem me sabe escrever e dizer o seu nome. a minha avó, a avó do meu coração, chamava-se assim...
obrigada.