domingo, maio 10

Seria o amor português

[variações sobre um fado]

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs.
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
Do teu amor tudo seja novo,
Um homem e uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?


Fernando Assis Pacheco, in Poemas de Amor, Antologia de Poesia Portuguesa,pg.195, Dom Quixote,2002

8 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

A importância de esperar à porta,
ou para além dela,
pelo que importa ao coração…
pois ao abrir a porta
e do outro lado estiver
quem importa,
é importante ter
palavras como estas
… à mão

mfc said...

Fiquei comovido... pelo poema e pela saudade que de repente senti do Assis Pacheco.

Ana said...

E são tantas as formas que essa porta pode ter...

Um poeta tem o dom admirável de conseguir "passar-nos" o que sente, com palavras (muitas vezes simples) que só ele encontra.

Beijinho

Marta said...

Passos: sempre inspirado!

Manel: tb a mim, me dão saudades de Assis Pacheco!

Ana, querida: é mesmo isso!

Paulo said...

Ninguém como os poetas para nos lembrar como o amor nos reconcilia com o mundo.
Saudades do poeta, deste, sim.
Obrigado.

Marta said...

Deste sim, Paulo! obrigada eu!

Su said...

..perdi a conta.............


amei esta escolha


jocas maradas menina linda

Zaclis Veiga said...

Amei minh aamiga. Para mim, o amor se escreve em português. Beijos