domingo, maio 24

Errar é humano. E o que haveria de ser?


Errar é humano. Diz-se com frequência. Geralmente como remate desassisado e conclusivo sobre algo irremediável ou não. Não será um pleonasmo? Será que os bichos se enganam? Será que as pulgas erram o salto? As aves erram as rotas? Os macacos erram o gesto?
Errar é humano! O que haveria de ser?
Erra-se quando não atingimos o resultado esperado, o objectivo delineado. Erra-se quando as consequências do que fazemos causam dor, dúvida, angustia, falha, ruína?
Quando construímos carreiras, relações, projectos de todas as latitudes – pessoais e profissionais – sobre pressupostos falsos? Sob a nossa verdade?
Quando é que erramos? Ou será simplesmente a ilusão a culpa do erro. Logo nós, porque nos iludimos. Não sei. Há quem culpe o coração. Outros, a burrice. E o assunto arruma-se.
Onde está o código desta estrada? Onde está o manual dos contratempos? O tratado das emoções? A enciclopédia dos sentimentos?
A primeira vez [fora de casa] que tive a noção clara de que o erro tinha punição, foi na escola primária. Com uma conta de dividir. Matemática. Pura objectividade. Mais tarde, apercebi-me dos erros que tinham concerto aparente. Uma vez, na casa dos meus pais, parti uma peça muito valiosa. Os cacos não eram muitos. Colou-se. Não se nota, disse a minha mãe, mas perdeu todo o valor. Aquilo ficou-me.
Entre os 14 e os 18 anos, descobri os erros emocionais. Tipo aqueles que cometemos tomados de paixão [faltar às aulas para ir jogar flippers; sair de casa, sem autorização, para ir dançar;] tão ou mais nociva do que o álcool e os seus efeitos aleatórios. Mas que ainda hoje, porque nem sempre aprendemos com os erros – não troco por nenhum gim tónico bem servido! Inícios. [Às vezes apetecia-me que a vida fosse apenas uma eterna sucessão de inícios.]

Depois, nas aulas de Português descobri claramente os erros de interpretação. «Não. O autor não quer dizer isso, o autor quer dizer...». E nós anotávamos o que o professor dizia sobre o que o autor quis dizer. Naquele tempo, eu não imaginava que os erros de interpretação seriam dos mais recorrentes durante a vida. Pensei que só teriam utilidade no teste sobre as Folhas Caídas, do Almeida Garrett. Mas não.
Acho que só aos 30 anos, mais coisa menos coisa, descobri os erros irremediáveis. Daqueles que não tem concerto. E onde se pode aplicar, levianamente, errar é humano! Pois haveria de ser o quê? Insisto. É uma afirmação sem siso.

Errar é humano, é embaraçoso, é cómico, é demolidor, é trágico. É um direito!
Errar a porta de casa é embaraçoso e cómico. Tentar abrir furiosa e insistentemente uma porta que não é a nossa, até nos perguntarem o que estamos ali a fazer, é de se fugir e nunca mais colocar os pés numa reunião de condomínio. É de ponderar mudar de casa, até!

Errar numa teoria, pode até trazer prestígio e reconhecimento. Por muito tempo que a teoria em vigor, esteja errada, já serviu. Foi verdadeira, até ao momento de se provar que já não o é. A construção do edifício cientifico é feita desse cimento de verdades destronadas. De verdades temporárias. Ou não.
Na ciência, o erro é, tantas vezes, uma bênção. Do erro faz-se luz. Há erros de uma longevidade secular. De uma utilidade impressionante.

O Erro de Descartes, por exemplo. Dei graças ao Manuel Damásio. É que sou do género emociono-me, logo existo. E andei tantos anos por me explicar! Andei tanto tempo a pensar que no lugar da cabeça me tinha nascido um coração. De cabelos claros, com olhos, boca, ouvidos. E um ou dois neurónios que, mesmo assim, metiam férias, quando mais eram precisos. Um horror!

E na vida, qual é o papel do erro? Cometer erros tanto na esfera pessoal como profissional pode ser trágico. Mesmo que daí se parta para uma nova verdade. Ou não.
Será que quando se segue o coração se erra ou, simplesmente, se desacerta? Não assertar é mais leve do que errar. E sempre dá a impressão de se estar a jogar às setas. Por exemplo.
E jogar às setas sempre é mais parecido com viver. Digo eu. Assim, como quem não encontra o alvo. Ou as setas. Tanto faz.
Na matemática diz-se do erro que é o valor absoluto da diferença (desvio) entre o valor exacto e o valor calculado ou registado por observação.
E na vida, o que é o erro? Um cálculo mal efectuado? Uma observação mal registada?
Um desvio? Seguramente. Um desvio. Ou um desacerto.
Entre muitos valores e outros tantos sonhos.

[Errar é humano. É demasiado humano.

E o que haveria de ser?]

13 Comments:

K said...

Mas olha que existem relatos de pássaros desorientados na dificil escolha de ir para sul ou norte! E existem casos de pulgas com várias lesões após um salto mal calculado! Pois errar não é só humano! Um leão não falha o bote final à sua presa?
E tudo uma questão de escolha ou timings!uns certos, outras errados!!
Mas seguir o coração nunca é um erro! E mesmo que seja, somos só humanos!

Beijo

Claudia Sousa Dias said...

minha querida é humaníssimo!

eu que o diga.


beijos muitos


csd

Funes, o memorioso said...

Confesso que tenho alguma dificuldades em vos perceber, humanos.

Su said...

eu erro...erro......opssssssssssss


jocas maradas menina linda

Malina said...

Hummmm... deixa cá ver: a noção que temos de erro não depende do que instituimos como verdade/certeza? Acordo do pensamento consigo mesmo ou com um dado factual, etc, etc..?
Se assim é, e se tudo na vida não pode ser a preto e branco... vamos errar sempre. Então, como diz o Beckett: errar, errar sempre, mas errar cada vez melhor.

Início de semana bastante reflexivo, hein?:))

beijinho

Claudia Sousa Dias said...

grande Malina!

fiquei fã, só com este comentário.


:-))


csd

Anónimo said...

Tata ironia, Marta ;) Gostei!

Carlos Azevedo said...

Nada é mais humano do que errar, até mesmo porque é o erro, entre outras coisas, que nos humaniza: só erramos quando temos a capacidade de optar. E a capacidade de optar, resultando directamente da capacidade de raciocinar (embora nem sempre quem raciocina possa optar…), é por natureza humana.

Anónimo said...

Ao ler este texto,só me lembro do meu sofrimento nas aulas (e testes) de portugês, a tentar "advinhar" o que o autor queria dizer "com isso".
Tenho a certeza que somente ele o saberia.
E os professores, coitados, a acharem-se donos da verdade!!!!
Quando me perguntavam o que eu sentia quando "lia isso", achavam-se no direito de dizer que não. Que estava "errado"...
O meu sentimento, ou a ausência dele estava errado.
Sera?
Sei que aqui nunca errei, mas só eu sei... ...
MB

sonja valentina said...

eu ainda acho que errar faz bem... pelo menos dá-nos oportunidade de repensar e saber (ou não) como fazer da próxima vez.

Mas sim, errar é humano. porquê? porque sim, porque nos dá jeito e porque nem sempre achamos explicação melhor para tal...

BC said...

Os erros foram estipulados pelos homens, o que pode ser errado para mim pode não ser para ti.
Demasiadas convenções, por isso tenho andado a fazer uma introspecção e fugi uns tempos por causa dos erros, que nos destroem ,apesar de não ter sido comigo mas fiquei afectada.
Nem de propósito este teu tema
Beijocas

SILÊNCIO CULPADO said...

Marta

Não vou comentar este texto excelente.

Deixo como remate uma máxima de Charlot com a qual me identifico.

"Gosto dos meus erros. Não quero renunciar à liberdade maravilhosa de me poder enganar."


Abraço

Zaclis Veiga said...

nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez.

É do Paulo Leminski, o mesmo que disse que a liberdade de errar já vem, inscrita no código genético do poeta.

beijo