segunda-feira, maio 18

Entre o esquecimento e o perdão

Aos 40 anos uma mulher descobre que a sua vida é uma mentira. O pai não é seu pai, os seus irmãos, não são seus irmãos e o avô que visitou, durante tantos anos, no cemitério de Coimbra, cidade onde nascera, vive na Holanda.
Poderia não ser importante descobrir a verdade, uma vez que a sua família de coração e de fé, eram todas as outras Carmelitas Descalças do convento onde vivia. E Deus. Vivia para Ele e com Ele. Em silêncio e oração. Numa fé só de eleitos.
Abandonou a sua vida de recolhimento. Colocou o hábito dentro de uma caixa. Despediu-se de toda a gente no mosteiro que sempre a consolou e resguardou do mundo.
Voltou a chamar-se Helena. Leni, como lhe chamavam os irmãos e a mãe. E partiu em busca de si, da sua história. Com fé. Talvez na força de um pedido da sua mãe, expresso numa carta deixada, antes de morrer. Tinha ela 14 anos.
Já na Holanda, na praça de Dam Square, ainda desajeitada naqueles trajes de mulher comum, comprou um chapéu que lhe tapasse a cabeça.
Ainda bem que tudo lhe estava a acontecer no Inverno. Assim vestida e calçada, o desconforto não era total. Não saberia como lidar com o sol na pele.
Helena caminha em direcção ao hotel. Sente medo. Medo e desejo.
Medo de saber quem é; desejo de saber quem será.
Com quem se parceria? De quem herdou os olhos esverdeados, o rosto angular, o cabelo claro e sedoso, o corpo esguio, as mãos de pianista?
E, principalmente, de quem herdou aquela vontade de ajudar o mundo em silêncio e recolhimento, só com o poder da oração?
E de onde lhe vinha aquele fascínio pelo céu, principalmente quando a noite cai e o telescópio vigia as estrelas. A astronomia, que estudou, ainda hoje a fascina e comove. Passou a infância a olhar para o céu e a adolescência a ponderar se Deus mora lá. Acredita que sim, que mora.
Tantas certezas sobre as estrelas e sobre Deus e, agora, enquanto caminha, nenhuma sobre si. Helena é o dogma da sua existência. Disseram-lhe que era filha de Mário Vila Franca e Antónia Vila Franca e ela acreditou. Disseram-lhe que era a irmã mais velha, de dois irmãos, e ela acreditou. Nunca colocou nada em causa. Nada.
Até porque estava escrito. E as coisas escritas parecem indesmentíveis.
E agora, na mala que desliza atrás de si, tem a carta que o pai lhe escreveu para o convento, poucos dias antes de morrer. E como pesam as cartas que chegam dias antes de quem as escreveu morrer.
Que sempre a amou como filha mas que não era sua filha. Que procurasse o avô materno, na Holanda. Que o paterno, é verdade, tinha morrido, mas não tinha campa, em Coimbra.
Que guardasse os documentos que lhe envia com a carta. São originais. E que perdoasse ao seu verdadeiro pai e lhe perdoasse a ele, também, por nunca ter tido a coragem de lhe contar a verdade. Mas, fosse qual fosse a verdade que encontrasse, morria certo do seu perdão. Afinal, uma freira, tem por dever perdoar. E sabe fazê-lo melhor do que qualquer outra pessoa.

Helena caminha em direcção ao hotel, tão absorta nos seus pensamentos, que não repara num velho vigoroso que a segue desde que deixou o aeroporto em direcção ao centro da cidade. O velho que a viu comprar o chapéu sem o experimentar, segue-lhe os passos.
Os passos de uma mulher comum, para a qual a vida deixou de fazer sentido no recolhimento e na oração. Uma mulher entre a memória e a mentira. Entre o esquecimento e o perdão.
Imagem daqui

16 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

ah...minhaquerida. quem me dera a mim ter vocação para freira...

:-)


CSD

Paulo said...

Narrativa fascinante

PAS[Ç]SOS said...

Começo com duas palavras: 'TOTALMENTE RENDIDO'!

...e depois não há nada mais a dizer. Há que ler de novo e tentar saborear a crença com que se escreve assim!

Patti said...

Curiosidade totalmente espevitada.

Zaclis Veiga said...

Tua escrita me arrebatou.

K said...

Quem será o velho que lhe segue os passos?

Será que vamos saber? Espero que sim!

Beijo

Anónimo said...

Será que este texto faz parte de um livro que está "para sair"?
Eu quero ler, aliás, preciso ler.
Eu quero participar na "saída" deste livro.
Vá lá!!!! Precisas empurrão?
Eu dou, e com força.

Bj
Maria Benedita

leo said...

Encontrei-te ao que as pessoas julgam ser "acaso", mas, depois do que andei lendo por aqui, creio que algo ainda mais significativo, e, indefinível trouxeram meus olhos aqui. Uma leitura agradável! Gostei muito do teu espaço e do que li por aqui. Parabéns! Retornarei mais vezes!
Abraços!

Funes, o memorioso said...

Como é de liminar evidência, ela perdoará, se o velhote agora descoberto, sendo ou não o seu avô verdadeiro, lhe deixar uma fortuna de herança.

Marta said...

Poupe-me Prof. Funes! A dar-me ideias, que sejam brilhantes, como alguns dos seus mais curtos pots!

Não há fortunas nem heranças. Ou melhor, há um coffeeshop no red light district...

Claudia Sousa Dias said...

bem, sugestões para um empolgadíssimo romance não faltam! também estou por demais curiosa.


venha ele!



csd

Flipmora said...

Helena, Helena... A ex-freira na cidade do pecado... Sigo-lhe os passos...

Jorge C. Reis said...

Que belo texto. Fiquei sem palavras.

Gi said...

Estou rendida.
Vai ter sequela?

lupussignatus said...

o frágil

castelo

da verdade



[sólida

arquitectura]

Marta said...

obrigada a todos :)

são exercícios feitos no curso de guionismo. este foi o primeiro e, para o efeito, não está assim muito bem!!!!

e sim, há mais ;)

sintam-se abraçados, marta