segunda-feira, maio 11

A tabela a loba e eu

Eu nunca fui uma aluna brilhante. Muito menos no secundário. As minhas notas iam do 19 ao nove. Tinha um pouco de tudo. Só estudava o que gostava. E nem era bem estudar. Era ler a matéria e tirar notas que acabava sempre por perder. Os cadernos eram verdadeiros tratados observacionais-poéticos, com sumários pelo meio. Uma desgraça! Nessa altura a única coisa que me brilhava, eram os olhos. Na leitura dos poemas. E no caminho para a biblioteca. E quando via o Filipe. Concedo. Mas dizia eu que não fui uma aluna brilhante. E quando digo brilhante, digo constante. Com método. Ou seja, com boas notas a tudo. Como a Leonor , por exemplo. Que tanto admirava. E admiro. Felizmente, ainda está na minha vida. Constantes. Como as notas dela. Eu era aquele tipo de aluna [quando tiver filhos apago o blog] que passava os dias encafuada em leituras, que ninguém me pedia. Passava as aulas de Matemática e de Físico-Química a escrevinhar e a anotar as palavras novas, que os professores iam dizendo. A professora de físico-química, por exemplo, passava os dias a dizer a palavra análogo. E era um tanto distraída com as experiências. Aquilo quase nunca corria bem. Uma vez, a colher de combustão derreteu. Excesso de química! Talvez por isso, eu gostasse tanto dela. Afinidades. Mas era a tabela periódica a única coisa a fascinar-me, naquelas aulas. E lá ia eu à procura do inventor da Tabela e da sua história.Coisas que não interessavam para o caso. Nem nunca a pergunta saiu no teste. Obviamente! Depois, perdia tempo infinito à volta dos nomes dos elementos da Tabela. Quanto mais estranhos, mais me seduziam. E lá me punha a escrever e a descrever personagens com nomes tipo manganês, cádmio, ósmio, dúbuio, actínio. Enfim, fazia dos metais e não-metais verdadeiros heróis! Nem o bronze, a prata e o ouro escapavam a um papel secundário! De acordo com as suas características. Sabia-ás de cor e salteado, como nunca soube a tabuada!
A tabela periódica ajudou-me a compreender a composição do mundo. Até do amor. Da química e da falta dela. E os alquimistas conquistaram-me para sempre. Mas nada disto me foi alguma vez perguntado no teste de físico-química. Daí os apontamentos marginais, no miolo dos cadernos. Ninguém os entendia. Só eu. Eram de uma inutilidade tremenda.
Entre as aulas onde, de facto, eu estava em tempo real, ou seja, sintonizada com o professor, contava-se a de História. Nas aulas de História, eu não precisava ir atrás da história. Era a História que vinha atrás de mim. E eu à frente. Por vezes. Com devoção. Sumérios, fenícios, cartagineses. Ainda hoje sei o nome do rei da Suméria e qual a função do patési. Detive-me na escrita cuneiforme difundida por toda a Mesopotâmia. Nos pictogramas que, depois, os fenícios passaram a alfabeto fonético, com 22 letras. Antes do nosso.
Depois, Roma, Grécia. O tanto que me apaixonei por elas, ali, nas páginas dos manuais. O tanto que as imaginei. O tanto que me fizeram compreender o porquê do mundo. A importância das civilizações fundadoras. Nas artes , nas leis, na religião, na economia, na arquitectura. Tudo. Fixei coisas improváveis. Coluna: base fuste e capitel. Entablamento: arquitrave, friso, cornija. Ordens dórica, jónica e coríntia. Romanas: toscana e compósita. E por aí fora. Os deuses todos. Ou quase. A minha cabeça, como se fosse Olimpo. A Grécia Antiga do helenismo. Minóicos e micénicos. Tudo cá dentro. Sem esforço.
Eu, em Roma, a rememorar isto tudo. Em cada esquina. Conhecimentos adolescentes à flor da pele. Ansiosa. Emocionada. O Coliseu, o Fórum. Os imperadores e os seus Arcos do Triunfo. Todos.Mas foi numa das salas dos museus capitolinos que os meus olhos mais brilharam! A capa do meu livro de História a três dimensões! Real. Carregada de significado. Lupa. A Loba. Ali, à minha frente. Lendária e tocável. Século V a.c. Mais real, só se o bronze etrusco respirasse!

[esse bronze resistente, sonoro e dúctil da "minha" Tabela periódica]


imagem: daqui [não consigo editar a que eu tirei :(]

17 Comments:

K said...

Um regresso às aulas carregado de história(s)!

Consigo imaginar essas desafinidades com as aulas de química e o ecrevinhar "furioso" de estórias com elementos da tabela periódica.
( Para quando uma aqui no blog?)

Também te imagino a deambular espantada pelas ruas da antiguidade clássica! (com esse mesmo brilho nos olhos)

Beijos

Gi said...

1. Não precisas de apagar o blogue quando tiveres filhos. Eles não te vão ler. Fala a voz da experiência. ;)

2. Sabes o que a professora de Química disse ao meu filho Tiago após várias experiências dele em que ela encontrou um denominador comum?

O Sr. Tiago é um verdeiro génio, sabe porquê? Só a si as experiências saem completamente diferentes!

Vês?

Qualquer um dos meus filhos eram alunos de 20/20 a História. ;)

Anónimo said...

Desculpa, Marta,
mas eu fiquei cansada de tantos nomes estranhos ler!!!
Quase adormeci, como nas aulas de História (e Filosofia)
Que canseira!!!!

MB

PAS[Ç]SOS said...

Pois… por onde começar? É, sem dúvida, mais um texto com a sua marca. Não fosse uma outra ‘Crónica de uma marta anunciada’. Começa-se a ler e vamos ficando agarrados, atados e até apetece dizer ‘só um bocadinho!’ se alguém interrompe. São inebriantes as voltas dadas para chegar à loba Lupa… uma vez mais a Roma. Pela minha parte devo dizer-lhe que os filhos, um dia, acabam por perceber que os pais, muitas vezes, lhes ‘tentam veder produtos que não consomem’… Há sempre um momento de desencanto! Quanto aos estudos a minha realidade é, de certa forma, inversa pois a História nunca me cativou. Contam que um dia terei perguntado para que teria eu de saber os nomes dos reis e respectivos ascendentes e descendentes se os nomes do meus familiares eu não tinha de saber com tanto rigor. Já a Física e a Matemática me encantavam. Conciliar todas as fórmulas em cadeia era para mim fascinante. Assim como agora me deslumbra encontrar linhas onde as palavras e as ideias se encaixem umas nas outras fazendo-nos chegar a um fim, sem deixar esquecer o caminho percorrido até lá chegar.

CA said...

Eu não li, porque é muito grande, mas gostei.
E dos bonecos tb gostei.

Numa olhadela rápida vê-se que tem muitos pontos finais sem §, o que desmoraliza imenso.

É possível uma versão resumida?

:)

Luciano Schüler said...

Ótima postagem!
Abraço!

heretico said...

que coisas esquisitas tu aprendeste! e que eu perdi. lol

adorei. escreves muito bem.

grato.

Su said...

gostei de ler.t e imaginei.t na emoção vivida-------------


jocas maradas menina linda

Malina said...

Pode crer, Marta, que foi mais interessante esta "aula" de História(que já me fez ir ler umas coisas)do que as que tive lá pelo liceu...:))
E esse fôlego narrativo...sim senhora.
Valeu!

Anónimo said...

Confessa que foste aos livros ver os nomes antes de escrever!

Marta said...

K: Guardo 3 histórias dessas, com os nomes dos metais da Tabela...mas não tinha coragem de as trazer aqui :);)

Gi: fiquei mais descansada :) ;)

Maria Benedita: nem sei como aguentaste ler até ao fim!!!! :)

Passos: tinha uma amiga, do tempo de liceu que sobre estas matérias dizia: mas esta gente toda já morreu! que interessa estudar isto! :) :)

CA: vou tentar! uma versão mais reduzida. Só para ti! ;)

Luciano: obrigada :)

Heretico: coisas que, mesmo querendo, seria impossível esquece-las! :) Aprendi. E aprendi para sempre! obrigada.

Su: foi de facto uma grande emoção! Nem quero imaginar, quando me apanhar na Grécia! Vou ter de levar calmantes :) :) :)

Malina: fico mesmo contente por ter gostado! :)

Anónimo: daria um belo post, essa confissão!! Quase estou tentada! Mas entre o pouco que sei, há um grande depósito de conhecimentos inuteis. Ou quase... dos quais não me consigo livrar!

Marta said...
Este comentário foi removido pelo autor.
CA said...

O melhor dos textos ainda são os teus comentários.
Insuperáveis ! A elegância com que respondes, seja qual for o sentido do comentário, é transcendente.

:))))

Estou rendido, linda! Mts Bjs
C.

Marta said...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo said...

É só por isso que eu quero ser da tua equipa quando jogamos Trivial.
Somos a dupla perfeita e não há forma de te convenceres disso, mesmo quando não acertas em nenhuma, ou quase nenhuma pergunta de desporto da actualidade porque se for sobre a origem dos jogos olímpicos, tu sabes de certeza :)
XPTO

Patti said...

Estas alquimias são surpreendentes e às vezes, surgem tão inesperadas.

Muita proximidade nestas palavras, Marta

Zaclis Veiga said...

Adorei a história. Também eu passeis por parecidas.