segunda-feira, maio 4

Os cafés

OS ÓRFÃOS DOS CAFÉS

Tal como Borges escreveu um dia, eu poderia de igual modo dizer: «Nasci noutra cidade que também se chamava Lisboa».Borges diz que recorda o que viu e também o que os pais lhe contaram. Mas ele sabe que as nossas verdadeiras cidades são sempre as cidades da nossa infância. Por isso acrescenta: «sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os paraísos perdidos. / Alguém, quase idêntico a mim, alguém que não terá lido esta página / lamentará as torres de cimento e o podado obelisco». A cidade de hoje será a infância de amanhã.Por tudo isto gosto imenso dos livros de Marina Tavares Dias. Com uma obstinação exemplar, ela tem vindo a reerguer a «Lisboa Desaparecida», isto é, a Lisboa da minha infância e sobretudo a Lisboa dos meus tempos de estudante, mas também a Lisboa dos meus pais e dos meus avós (com o tempo tudo se mistura, e regressamos todos à mesma pátria intemporal, à Lisboa fora do tempo, onde brincámos e aprendemos a amar). Associando a isto duas outras obsessões, mas a verdade é que as duas coisas não estão separadas: Sá-Carneiro e Pessoa, ligados aos cafés que eles frequentaram e aos lugares onde passearam e escreveram.Num desses livros envolvidos numa aura de bruma, Marina Tavares Dias restitui-nos agora «Os Cafés de Lisboa» (Quimera). Noutro dia Jorge Listopad escrevia que à saída do Teatro São João do Porto me tinha visto, no último café iluminado na noite da cidade, a escrever certamente a crónica para o dia seguinte. Não era por acaso. As crónicas escrevo-as sempre em computador. O resto (que se poderia dizer «o essencial», mas talvez isto nem sempre bata certo), escrevo-o à mão, em cadernos verdes ou azuis, nos cafés ensonados e friorentos que ainda existem pelo mundo fora.A verdade é que adoro cafés. E que tive em cafés alguns dos mais belos momentos de leitura, encontro, discussão, contemplação, escrita, estudo, violência de olhares, ternura das mãos, de que me posso lembrar. Nesses cafés que a Marina recorda no seu livro: o Monte Carlo, o Monumental, a Brasileira, o Palladium, ou, depois, a Grã-Fina, o Nova-Iorque, o Vává. E entre os motivos que tenho para gostar do Porto estão os cafés que ainda lá existem: cafés rodeados de noite e fumo, com velhos de unhas negras, prostitutas tristes, e adolescentes sufocando a tristeza num bolo de arroz e num leite quente.

Eduardo Prado Coelho
imagem: Manuel de Sousa
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a) [e não é saudades de ler Eduardo Prado Coelho porque isso, felizmente, eu posso fazê-lo sempre que me apetecer. é saudades de saber que podia ler uma crónica dele, no Público. é desse ritual que tenho saudades. desse momento em que começava a ler o jornal pela página onde estivesse a sua crónica]

b) [já há uns anos encetei uma pesquisa sobre os cafés do Porto. É um tema que me interessa muitíssimo. Se alguém tiver conhecimento de textos - por exemplo, assim, uma simples (e deliciosa) crónica como esta - é favor informarem-me. fico muito grata. obrigada. muito.]

14 Comments:

comboio turbulento said...

O Piolho é e será sempre um antro de poesia :)

Marta said...

Pois é :) e, "agora", tão animado, tão vivo, tão renascido e sempre pleno de memórias.

Zaclis Veiga said...

Andei por tão poucos café no Porto. Depois de ler a crônica penso que há mais um bom motivo para voltar. Muitos beijinhos linda

Anónimo said...

Não esquecer o 100º Aniversário do Piolho, dia 26 de Junho.

O Ricardo da Dalaila

Marta said...

Ricardo, lindo, que bom ver-te por aqui, a espreitar, e com uma chamada de atenção tão importante! Tu és um homem da História e da memória! bjos, muitos

Zaclis: não faltam motivos para regressar ao Porto! e são indizíveis os que sustentam
o não arredar o pé daqui :)
bjos, muitos

Anónimo said...

Lembro-me de ter lido um trabalho teu sobre os Cafés.
Foi quando fechou o Café Lima 5!!
Que "bem" que estava...
É dessas coisa que eu gosto de ler

Bj
Maria Benedita

Maria Velho said...

E conhece o Projecto 1/2 pensão que pretende revitalizar os cafés dos escritores, dos poetas, dos disseurs, dos múltiplos artistas aqui no nosso Porto?
No outono regressa e vai estar no "Piolho", no Aviz entre outros.
Uma outra Marta, minha, comunga desse apelo...

armando s. sousa said...

Por falar em cafés, estou a ler um delicioso livro do Patrick Modiano com um título realmente bem conseguido: No Café da Juventude Perdida.
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Também começava a ler o Público pela crónica do EPC.
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Tenho algures no meio dos meus milhares de papéis amontoados alguns artigos (dos anos 80 da extinta revista Sábado) sobre cafés do Porto e não só.
Não prometo quando, ainda por cima vou estar ausente de Portugal toda a próxima semana, mas farei o necessário para te chegar às mãos, nos tempos mais próximos, scanners desses artigos.
Um abraço.

Claudia Sousa Dias said...

sabes que há cafés no Porto onde é proibido ler?

existe uma confeitaria em Soares dos Reis ond eo dono nem deixa abrir um livro...


csd

Henrique ANTUNES FERREIRA said...

Martinha

Que título conseguido! Muitos parabéns! Um velho jornalista como eu (a caminho dos 68), naturalmente que gosta de titular. Eu, adoro. Este é muito bom!

Depois, o blogue é interessantíssimo. Conheci-o através do "Duas ou três coisas" do meu querido Amigo Chico Seixas da Costa. Outro excelente blogue, o dele.

Finalmente, o EPC, como eu lhe chamava. Anos a fio fomos compinchas, já admirava o seu Pai - mas com o Eduardo era facílissimérrimo ser amigo.

Trocavamos alfinetadas amiude e depois iamos beber umas coisas. Custou-me muito a aceitar a morte do EPC. Ainda que todos lá cheguemos mais cedo ou mais tarde, algumas são mais dolorosas. É o caso.

Pronto, minha Amiga. Prontos, como agora se usa à maneira bacoca. Deixo-te, apenas, um pedido: se assim o quiseres, vai visitar-me e tornar-te minha (per)seguidora. Eu já o fiz e... Amor com Amor se paga - ainda sem imposto...

Lá no meu covil, tenho um passatempo/concurso. Se lá fores, não te mordo. E, já agora, convida também os teus cúmplices para.

Qjs = queijinhjos = beijinhos (e até rimam...)

BC said...

Já me apercebi que fechou o Piolho afé conhecido aí por essas bandas________________como eu me lembro de ver o meu pai a escrever os seus livros de poesia nos cafés de Lisboa onde se trocavam ideias. olhares e tantas outras coisas ideias, estudos....é pena no fim pequenos encontros que agora são inevitavelmente desencontros do passado.
Beijo
Isabel

Patti said...

Eu adoro os cafés da minha Lisboa e esse teu Piolho, conheci-o em Setembro e andei por lá a ler as placas dos estudantes ...

Marta said...

Maria Benedita, o que me foste lembrar :) :)


Não conheço, Maria, mas vou tentar conhecer! Deve ser interessante!


Armando: sem pressa! Obrigada pela atenção.

Sim, Claudia, sei que há cafés que não permitem estudar/ler. Os mais pequenos, geralmente. Pois tem poucas mesas!

Henrique, muito bem vindo!
Irei, com gosto, passar no seu blog.

Não, Isabel :) o Piolho não fechou nem vai fechar. Vai fazer 100 anos! E isso é um orgulho para a cidade do Porto. Digo eu!

Eu também gosto muito, muito, muito dos cafés da tua cidade Patti! Eu gosto de cafés. Gosto bastante de cafés. Em Roma, em Paris, em Praga - meu deus - tantos cafés fascinantes e cheios de história e estórias!
As placas dos estudantes, no Piolho, são fantásticas. Também não me canso de as ler e reler sempre que vou ao Piolho :)

Flipmora said...

Eduardo é presença perene no prado da literatura, e as suas crónicas eram as tocas acolhedoras onde o encontrávamos... Saudades.