quarta-feira, maio 13

O amor tornou-se uma questão prática


«[...] O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como nãopode. Tanto faz. É uma questão de azar.O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.


Miguel Esteves Cardoso, Excerto do texto Elogio ao Amor
[este texto é conhecido universalmente. e se não é, devia ser! MEC no seu melhor! Mas, como diz o editor da nova revista, todos nós já o recebemos, repetidas vezes, por e-mail! ao abrir a revista do i, no passado sábado, ei-lo a celebrar o tema da capa! Adorei a publicação e, apesar de não ter onde as arrumar, vou coleccionar as 50!]

12 Comments:

mateo said...

Deve ser isso...
"O amor não se percebe!"
Deve ser isso mesmo... Colhê-lo à beirinha do abismo.
Beijo.

Zaclis Veiga said...

Este texto estava esquecido dentro de mim, perdido entre a poeira da memória antiga e não poderia ter vindo em melhor hora.
Resgato-o por meio de você. Obrigada minha querida.

SILÊNCIO CULPADO said...

Marta

É um texto empolgante como deve ser o amor-paixão.
Sem loucura e sem perda de razão, amar parece confinar-se a um quotidiano demasiado sensaborão e previsível.
Até já há quem ame por meio virtual.


Abraço

Su said...

gostei de reler



passa no xanax, há um mimo para ti

jocas maradas

Su said...

menina vou ripa.lo para colocar no meu mad..ok..gentilmente

jocas maradas , sempreeeeeeeeeee

PAS[Ç]SOS said...

Nada tenho a acrescentar Meritíssimo! [perdão MEC]

Henrique ANTUNES FERREIRA said...

Martita

O MEC foi colaborador do DN no Suplemento Literário, que eu coordenava. Conhecemo-nos. E durante uns meses falámo-nos. De repente, deu-lhe na veneta e zarpou. O Miguel é assim.

Este texto que li «atempadamente» é uma das suas pérolas, ainda que o MEC tenha alguns que são um pouco como os a quem se dão as supracitadas... Gostos. Opiniões.

Reli-o, agora, graças a ti - e vou dizer ao senhor gajo que o acho um primor. Ao texto, que não a ele...

Qjs

vaandando said...

Pois, os tempos são mornos , insípidos, mas isto é só uma tentação de olhar o mundo á volta !
Abraço, Marta
_____ JRMARTO

Maria Emília said...

Ainda não tinha lido o nome do autor e já estava a adivinhar que era ele. Bom ele é bem feroz no seu texto e parece zangado. Em algumas coisas, tem razão, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra. Ainda anda por aí amor no ar...
Um grande beijinho,
Maria emília

Sonia Potrich said...

Marta... que lindo você poder partilhar conosco esse pequeno excerto do texto do Miguel Esteves Cardoso.

Hoje em dia, o sentido da palavra “Amor” está totalmente banalizada - ninguém mais fala do Amor com toda essa essência, essa vernaculidade.
É bonito ouvir e ler cada palavra deste texto.

Beijooo

Anónimo said...

FABULOSO!

Cristina M.

Anónimo said...

Amor é acreditar numa nova chance, acredita.. Vale a pena!

Irina Lima