terça-feira, abril 14

O lado esquerdo de uma mulher


Cara Isabel,
Ao ler este mail é essencial que tenha fairplay, como acho que tem. Mas é fundamental que não olhe para mim. E este momento é decisivo. Continue, por favor, mas não olhe para mim. Ficaria embaraçado, talvez. Apesar de eu, aqui na empresa, por força das circunstancias, ser o homem que mais longamente olha para si. Ou melhor, ser talvez o único homem que olha para o seu lado esquerdo oito ou mais horas por dia. Estamos a palmos de distância um do outro. Duvido, aliás, que alguém, alguma vez, olhasse para o seu perfil como eu olho, quase há quatro meses. Todos os dias úteis. E não é fácil. Olhar diariamente para o seu lado esquerdo, principalmente quando a janela que está à minha frente (do seu lado direito) deixa, a determinados dias e a determinadas horas do dia, passar uma luz que a desvenda, tantas vezes, sensualmente. Não me leve a mal. Mas é assim há quase quatro meses. E hoje resolvi-me a dizê-lo. Hoje, vou falar-lhe do seu perfil. Do lado esquerdo. Portanto, isto não é um mail de trabalho, como vê, é só destinado a si.

O sinal que tem, um pouco abaixo do maxilar, um tanto distante das maças do rosto é o primeiro que me chama a atenção. Consigo perceber, a veia que passa junto ao seu queixo e depois desaparece. O seu queixo tem um traço elegante. Gosto também do perfilar das suas pestanas, da ponta do seu nariz e das rugas de expressão que se distendem na sua testa como linhas de minas 0,5, às quais não consigo ver o fim. Quando sorri, as suas maças do rosto são a saliência mais sexy da sua face. Quando o usa, gosto particularmente do seu decote. Como imagina, é o perfil do seu seio esquerdo, que melhor conheço. Faz-me sempre lembrar de um trecho que li cujo o autor, nesse momento, nunca me vem à memória.Quando traz uma camisa de linho, a luz, deixa perceber ligeiramente o seu soutien. Há um cuja cor não consigo determinar. Mas é escuro. Não é preto. Percebem-se os tons.
Acho graça à forma como as migalhas das bolachas, quando as come à secretária, caem no seu decote. E sempre que bebe o iogurte líquido fico na expectativa de a ver com um bigode branco. Mas nunca aconteceu. Gosto muito do seu pescoço e, nestes quatro meses, nunca a vi sem brincos. Daqui, da minha secretária, o seu pescoço pede beijos. Sabia disso? Porque é liso e parece muito macio. Como se chamará o seu perfume, que nem sempre usa, e cujo o aroma se intensifica aqui, do lado esquerdo.
Gosto das suas mãos. A esquerda, é a minha preferida. Ao contrário da minha, não tem aliança. A que observo melhor, é a esquerda. Que surpresa. As unhas são perfeitas e, às vezes, a cor com que as pinta, combina com o seu batom. Penso em quais serão os desejos atados no seu pulso esquerdo, na fita do Senhor do Bonfim. Gosto da forma como desentala o cabelo, quando veste o blaser. Fico aqui a observar o seu lado esquerdo, enquanto o veste, quase sempre, em frente à sua secretária. Gosto das pontas desalinhadas do seu cabelo do lado esquerdo, da forma como o tenta arrumar para o lado direito, com a mão direita. Raramente usa a esquerda.
Gosto da forma como de vez em quando sorri para o seu computador. Gosto também de a ver séria. E já reparei que só fala ao telefone, do lado esquerdo. Às vezes, quando a sua cadeira desliza na direcção da minha secretária ouço sem querer as suas conversas. Ouço nitidamente a pessoa que está do outro lado, a falar ao seu ouvido esquerdo. Quando a cadeira desliza para traz, cruza a perna direita sobre a esquerda, raramente o inverso. E quando analisa papeis, por momentos, deixa a mão esquerda pousada sobre a haste esquerda dos seus óculos. Infelizmente, raramente vejo as suas pernas. Nem a esquerda, nem a direita. Da cinta para baixo, bem que podia ser uma sereia, que daqui, não vejo. Ainda bem que não é.
Um pouco acima do seu cotovelo esquerdo existe uma disposição interessante de sinais. O seu ombro esquerdo…tanto que eu poderia dizer sobre o seu ombro. Foram muito poucas as vezes que em todo este tempo vi os seus ombros descobertos.Poderia dizer outro tanto sobre o seu lado esquerdo. Mas começo a achar-me um imbecil. Só espero que não pense que os homens são todos uns sacanas. Não. Não são todos. Os piores talvez sejam os mal - casados como eu. E os mal-amados como tantos. E agora pode apagar este mail e fazer de conta que não o leu, que não lhe chegou. Ou, passar a tratar-me por tu e dizer: António, não queres ir ali ao bar tomar um café? E, com inteligência, pode pôr-me no meu lugar. E talvez eu deixe de observar, tão obstinadamente, o seu lado esquerdo.
imagem: Eduardo Cambuí Junior
[apesar de escrito em 2005, dedico este texto ao Paulo, meu professor, pois foi este um dos textos que me abriu as portas para o curso e, muito, tanto, tudo importante, me permitiu conhecer pessoas absolutamente maravilhosas. Com quem aprendi e aprendo muito.]

11 Comments:

Paulo - Intemporal said...

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estarrecido e des.lumbrado com este texto.
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e "os mal-amados como tantos" são o reflexo da passagem dos dias assim [...]
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querida Marta, comovo-me com este gesto, que muito me sensibiliza.
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e não mereço tanto, nem tampouco esta dedicatória que encontro aqui.
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repleto de defeitos, cumpre-ME ser o momento redentor no tripé de tantas as íris.
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grat.íssimo.
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e saio. de olhos rasos.
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um beijo meu. de coração para coração.

____________ e de facto há vida em Marta, que sorvo agora, na primeira Marta que conheço com M. de Mulher.

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Anónimo said...

Lembro-me tão bem!
E a versão dialogada do texto ficou absolutamente irresistivel, querida Marta! Lisboa reclama a tua presença! SAUDADES
Nós, os que também aprendemos contigo.

K said...

Reler-te é assim! Descobrir tudo de novo! Sempre e sempre a ficar surprendido!!

Beijo

SILÊNCIO CULPADO said...

Marta

É um texto belíssimo. Um texto que se volta a ler. Todos nós nos situamos um pouco do lado do observador ou da observada e nos revemos em experiências ou ilusões escondidas.

Abraço

Claudia Sousa Dias said...

já conheçeste texto que te valeu um prémio de escritor famoso creio eu, se não estou enganada. Mas se não foi devia ter sido...

beijos

Maria Emília said...

Parabéns, o texto é soberbo. Não me atrevo sequer a comentá-lo. Ele já inclui todos os comentários.
Um grande abraço,
Maria emilia

zaclis said...

Parabéns, é lindo. Adorei a maneira como você descreveu essa confissão de desejo de um jeito ao mesmo tempo singelo e intenso. Beijos.

Patti said...

Excelente Marta, muito bom de ler e muito melhor do que qualquer espelho.

Às tantas, fica-se à espera que ela se volte e nos dê a conhecer o seu lado direito.

Anónimo said...

ADOREI!
E digo como a Zaclis, sensual, este teu despir a Isabel! E o António, não tem um lado esquerdo para o despires assim :)?
Bjos.
Cristina M.

Marta said...

Paulo: Tanto! mas obrigada :)

Anónimos: gato escondido com o rabo de fora é o que é :) se disser que morro de saudades, não minto!

K:já não vivo, sem que me leias! só para te ler.

São: obrigada. Que bom que gostou :)

Maria Emília: obrigada. a sua opinião é também importante.



CDS: estás a baralhar tudo :) não foi este, esse. Mas podes baralhar tudo e baralhar-me, que eu gosto :)


Zaclis, querida: a tua opinião fazia-me falta :)


Patti: obrigada, também! habituada às letras, é muito bom ouvir o teu parecer!

Tinita: obrigada :) quando te registas, menina linda?


abraço-vos, muito

ps: este texto, gerou que eu recebesse um e-mail cujo texto é, do meu ponto de vista, muito interessante. Aliás, muitíssimo.
Pedi ao seu autor autorização para publicar nem que fosse parte do texto. Pois gostava de o partilhar convosco. Aguardo resposta. E darei notícias.

Gi said...

Marta, gostei muito deste teu lado esquerdo; virei cá mais vezes para te conhecer toda, do esquerdo ao direito, de cima a baixo, de frente e de perfil.

Obrigada por teres comentado no 31 e de teres gostado do texto, embora o meu registo seja, geralmente, outro, que espero gostes igualmente.