quinta-feira, abril 30

Não deixeis um grande amor


Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor
chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha
não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidências negava
por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendios

do mundo


José Tolentino Mendonça in Anos 90 e Agora, Uma antologia da Nova Poesia Portuguesa, pag, 131, Quasi
imagem: Claudio Solera

5 Comments:

MRF said...

Telepatia...

em uníssono, erguemos a voz de Tolentino.

PAS[Ç]SOS said...

E quantas vezes o 'sujeito' que comanda os amores nem entende que existem mal-entendidos?

Marta said...

Até estranharia, Diva, se entre nós, não se mantivesse a telepatia!
:)

Passos: pressuponho que essa é uma pergunta retórica! E difícil!

Gisela Rosa said...

Ouvi José Tolentino dizer que lhe era muito difícil lidar com as suas próprias emoções talvez daí tenha resultado tão bela poesia. Gosto muito dele e da sua poesia...um beijinho Marta

Su said...

tb gosto muito da peoesia de JTM

jocas maradas de mar