domingo, março 22

Fazes-me falta

Ontem, encafuada no carro, recordei, num ápice, os livros dela. Os que li. E foi a voz dela, de outra escritora, que me levou a procurá-los por entre os livros todos lá de casa. Já estiveram ordenados. E era-me fácil acha-los. Agora estão mais ou menos como eu! Não estão por ordem nenhuma. Estão.
[Logo se verá, ou não. Se será fácil. Achar-me. Também...]
[...]
«O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu - íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus - quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. Olho para o mar do Guincho, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas de mergulhar, e sinto-me também eu meio morto, meio frio. Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam».
[...]
«Queria roubar-te a obsessão, ter outra vez os teus vinte anos. Mas eu era já demasiado velho, voltava a ser novo, como as crianças, trocando um brinquedo pelo outro, respondendo ao brilho da próxima mão, existindo à superfície das coisas, táctil. A sabedoria do gozo, avessa à ciência do prazer. A felicidade esgotava-te, o sofrimento exaltava-te, nada era fácil para ti. -Como podes ter vivido tanto e ser tão leve?, perguntavas-me. Eu respondia apenas com sorrisos. Ai de ti, se descobrisses que viver demasiado é desistir da vida».
[...]
«E eis-me preso à memória escura dos teus olhos, dos teus passos saltitantes, da tua alegria convicta que a partir de certa altura começou a açucarar demasiado a minha vida. Não consigo concentrar-me. Passo os dias com os olhos sobre as letras dos livros que tenho de ler e não consigo entrar neles. E ouço muitas vezes a canção de Pascoal:
«A sombra das nuvens no mar / O vento na chuva a dançar / Uma chávena a fumegar / Tudo me falava de ti / A sombra das nuvens desceu / O céu alto arrefeceu / E o mar bravio perdeu / A luz que lhe vinha de ti.» Há quanto tempo não me arde o coração?»
[...]

Inês Pedrosa in Fazes-me Falta, Publicações Dom Quixote, 2002

1 Comment:

PAS[Ç]SOS said...

De falta em falta vamos criando vazios. E quando habitantes desses vazios, instintivamente, partimos à descoberta de novos instigadores. Quando os descobrimos renovamos obsessões, felicidades, prazeres… esquecemos de gastar a vida, de desistir dela, de irmos vivendo. E prendemo-nos a esses novos impulsos… e tudo o que deles provem tem um sabor doce… e só as palavras em que nos revemos parecem fazer sentido… e em cada acto das nossas vidas parecemos tropeçar nelas… nessas razões que nos fazem, de novo, arder o coração.