domingo, março 15

Emoções à prova

«Há alguns anos atrás, a brilhante pianista Maria João Pires contou‑nos a seguinte história: quando toca, através do controlo total da sua vontade, consegue reduzir ou permitir a passagem do fluxo de emoção para o seu corpo. A minha mulher, Hannah, e eu pensámos que se tratava penas de uma maravilhosa ideia romântica, mas apesar de a Maria João insistir que conseguia fazê-lo, nós permanecíamos incrédulos. Finalmente, resolvemos pôr a ideia à prova científica. Numa das suas visitas ao nosso laboratório, Maria João foi ligada por fios ao complicado equipamento psicofisiológico, enquanto escutava curtas peças musicais seleccionadas por nós em duas situações: uma de emoção natural «autorizada», outra de «emoção» voluntariamente «inibida». Os seus Nocturnos de Chopin tinham acabado de ser publicados e usámos alguns deles e outros tocados por Daniel Barenboim como estímulo. Na situação de «emoção autorizada», o registo de contundência da pele mostrou montes e vales, intimamente ligados ao perfil emocional destas peças. Seguidamente, na situação de «emoção reduzida» aconteceu, de facto, o impensável. A Maria João conseguia literalmente aplanar o seu gráfico de condutância da pele, de acordo com a sua vontade e conseguia até modificar o seu ritmo cardíaco. Sob o ponto de vista comportamental também se transformou. As emoções de fundo estavam reorganizadas e alguns dos comportamentos especificamente emotivos eliminados, registando‑se uma diminuição do movimento da cabeça e da face. Quando o nosso colega Antoine Bechara, totalmente incrédulo, quis repetir toda a experiência, pensando que os resultados poderiam ser devidos a um artefacto de habituação, a Maria João repetiu tudo. Afinal, podemos encontrar certas excepções, sobretudo entre aqueles cuja vida consiste em criar magia através da emoção».


António Damásio in o Sentimento de Si

4 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

Sabes que a Rosa Alice Branco discorda radicalmente de António Damasio?

principalmente neste livro...acho que será tema de uma conversa para uma futura tertúlia quando conseguir que ela venha a Famalicão...


CSD

Claudia Sousa Dias said...

Já agora, falando em emoções, hoje fartei-me de chorar com "O Estranho caso de Benjamin Button".

Aquele bailado ao som de Gershwin, de vestido vermelho e debaixo de daquela lua gigante é simplesmente mágico!


beijo, beijo, beijo


CSD

CA said...

Eu adoro a MJP e tenho os Nocturnos, uma obra magistral e magistralmente tocada.

E tb gosto de comparar (isto é, ouvir alternadamente) os concertos para piano de Mozart tocados por ela e pelo Keith Jarrett.

As experiências científicas sobre este assunto são mt interessantes, académicas e nada têm a ver com a pessoa que ouve esta música.

Com o respeito que Damásio merece por findings bem mais interessantes, nomeadamente no "erro de Descartes", eu vou continuar a ouvir MJP e estou-me nas tintas para a "análise".

Beijinhos

CA

Marta said...

Claudia, linda: eu adoro ler...se concordo ou não com o que leio...é outra instância :)

Mas eu gostei muito do Erro de Descartes... e deste tb!

Quanto ao filme...é a essência...não é o filme. é outra coisa :) SABIA que irias gostar!

CA: eu tb tenho os Nocturnos da MJP! Vou tentar essa alternância...

Bom dia :)