domingo, março 8

Pequenos-almoços


O pequeno-almoço é a refeição que mais aprecio, ao fim-de-semana. Com tempo.
Ou de manhã, ou à hora do almoço, como hoje!
Acordei tarde.
[Terá sido por isso que inventaram o brunch?]
Também não importa. Agora.

O importante é que a sala, virada a sul, permite ao sol entrar pelas quatro grandes janelas de vidro. A varanda ampla, silenciosa. A árvore, em frente. Quieta. A minha árvore. Ninguém sabe que é minha. Mas eu sei. E ela também. E isso basta-nos. Ofereci-ma no dia em que habitei esta casa. E, desde então, tem-me revelado os segredos das estações do ano. Mas não são apenas segredos. São segredos explicados por sinais. E a primavera, por exemplo, não me chega só pelo calendário. E isso diz-me muito. É exactamente como as pessoas que conhecemos e nos dizem. Não nos chegam só pela data do aniversário.

[Esta minha capacidade inata de ir por onde não quero! irrita-me genuinamente. mesmo.]

Falava de pequenos -almoços. Com café com leite e pão com manteiga. Básico. Em qualquer parte do mundo. Ou com compota de mirtilos – a minha preferida, talvez, sem certeza, só porque existe a de abóbora - e requeijão ou queijo fresco. E fruta. E sumos naturais. Naturalmente. E jornais. Os jornais ao pequeno almoço, em silêncio. Tão bom!

Hoje, recordei-me daquele episódio que contas sorrindo, do café da manhã. Não te entendiam. [Por falar nisso, chegaste bem?]
E lembrei-me dos pequenos-almoços em Macau! Coloridos, como lápis de pintar. Majestosos. Como se eu fosse princesa. E voltou-me o espanto. E a saudade. E da minha saudade fui para os pequenos almoços na casa do Gerês, no Verão, com o pão fresco que o Irineu [será assim que se escreve?] ia buscar. Para depois ir jogar ténis.
E agradeci-te-[vos] numa prece improvisada. Muito breve. De dentro.

Hoje, lembrei-me, ainda, da torrada com o meu nome gravado no pão! E sorri-te. Apesar de não estares aqui. [Sabes que ainda hoje acredito que sou a única pessoa no mundo que comeu torradas personalizadas?] Sabes que são torradas que guardo na minha caixa de música? Onde guardo todas as boas recordações. Como as torradas que esculpiste para mim. Como se o pão ou o amor, tanto faz, fosse uma rocha ígnea.

Hoje, vieram-me à memória todos os pequenos-almoços que fizeram do meu dia, um dia inteiro feliz. E enquanto pensava em tudo isto, faltavam-me os jornais e, só por isso, fui ao escritório buscar um livro. Para que o silêncio de domingo, fosse também de palavras impressas. Como tanto gosto.

E nas páginas 112 e 113, encontrei o seguinte:

(...) Regresso a esse serão sul-americano já antigo e vejo o meu pai. Estou a vê-lo nesse momento; e ouço a sua voz a dizer palavras que eu não entendi, mas senti. Essa palavras eram de Yeats, da sua «Ode a uma Cotovia». Reli-as muitas e muitas vezes, como vós, mas gostaria de voltar a ela uma vez mais. Creio que isto agradará ao fantasma do meu pai, se ele andar por aí (...) Pensei que sabia tudo das palavras, tudo da linguagem (quando somos crianças sentimos que sabemos muitas coisas), mas estas palavras chegaram-me com uma revelação. Claro que não as compreendi. Como podia eu compreender este versos sobre pássaros – sobre animais – que são de certo modo eternos, intemporais, porque vivem no presente? Somos mortais porque vivemos no passado e no futuro – porque recordamos um tempo em que não existíamos e antevemos um tempo em que já teremos morrido.
[e eu compreendi isto tão claramente que me comovi]

Esses versos chegaram até mim através da sua música. Eu pensava que a linguagem era um meio de dizer que se está alegre ou triste e essas coisas. E no entanto, quando ouvi esses versos (e em certo sentido nunca os deixei de os ouvir desde então) soube que essa linguagem podia ser também uma música e uma paixão. E assim me foi revelada a poesia.

Acreditem. Este pequeno-almoço com Este Ofício de Poeta, de Jorge Luís Borges, fez do meu dia, um dia inteiro feliz. Está fazendo.

Gosto tanto de estar aqui, com sol. Neste domingo de silêncio e palavras impressas.

Como se não doesse absolutamente nada. Em mim. E no mundo.


imagem: introspective/flickr

8 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

e o de hoje foi magnífico. Pela vossa companhia e por aquele maravilhoso sol a aquecer as costas e a expulsar as gripes.

sinto-me ~um pouco a Mimi de La Bohéme...


csd

Anónimo said...

Chegou-nos agora por e-mail o teu blog com este texto que és tu nossa Marta!
Terna, linda,por fora e por dentro, com mil palavras que nos fazem recordar, sonhar, viver.
Gostamos tanto de te ler.
Beijos nossos,
nós

Ps: não achas que já está na hora do próximo livro? ;) desta vez contigo mulher - citando-te :)

K said...

Sim, Cara Marta! Estou ansioso para saber qual o teu próximo livro pela manhã!

O teu planeta(ou só será uma árvore?)é sempre muito belo!

Feliz de quem partilha as torradas contigo!!!

adevidacomedia said...

O teu pequeno-almoço dá para tudo. Dá para amar incondicionalmente uma torrada ou barrar o pão com memórias. As doces, como compota. As outras, ao menos com sol por dentro. Nunca deixes de te escrever. Mesmo quando os dias te saibam a um ontem ressequido. Porque de todas as maneiras é assim que gostamos de te ter inscrita, sempre, em cada um de nós. Um beijo

E. said...

Sim. Cheguei bem. Aliás, tenho reparado que chego sempre bem, quando sou movida pelo amor. Ou pelo cheiro do café da manhã...que é mais ao menos igual... com doses de cafeína qb e pão com manteiga derretida aos primeiros calores da torradeira.(Como se chamará o marido da torradeira?! Torradeiro?!)
E é tão bom acolher em português o pequeno almoço, que mais não é do que o filho mais novo do almoço grande que chega sempre um bocadinho mais tarde, mais pela hora em que o sol se põe em biquinhos de pés.
E.

Dalaila said...

eu adoro os pequenos almoços tardios e em remanso, com tudo compotas derretidas, queijos muitos tantos, sumos de todas as cores, um livro uma música o sol ainda a espreguiçar-se.... fizeste-me acordar para o dia.

BOM DIA!

Marta said...

guardo-vos...na minha caixa de música. um por um.

candida said...

o marido da torradeira é a panela.
:)