segunda-feira, março 9

Comboios: uma viagem a fazer; outra que fiz


Gosto de viajar de comboio. Muito. Tanto.

Sempre que posso, quero ir de comboio. Há, aliás, uma viagem que sonho fazer. A "mítica". Não influenciada pelo livro de Agatha Christie, que nunca li. Não pelo From Russia With Love, de Ian Fleming. Não. Apenas movida pela paixão dos comboios. É um sonho a cumprir. Desta ou daquela forma. Quero ir. Um dia.

Hoje, a intenção é dizer a um amigo, ao qual perdi o rasto [culpa de um desencontro] que, nesta data, o recordo. Especialmente. Sempre. Foi para ele que, em 2005, escrevi este poste. Uma, entre muitas viagens de comboio...

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De manhã, cedo. Muito cedo. Saltei da cama e já o meu coração não estava no peito.

Sequer tinha adormecido comigo. Ficara vigilante. Talvez da minha alegria. Talvez redentor das minhas asas. Nesse tempo eu era capaz de voar. Mas fui de comboio.
Ainda hoje uma linha de ferro me faz sonhar. E procuro uma estação de comboios, como quem procura um santuário. Sempre que visito uma nova cidade.

Gosto do pulsar das estações. Das pessoas a entre-cruzarem-se.

Cada uma pensando numa coisa diferente. Tomando um rumo diferente.

A partir dali. A chegar ali.

Gosto dos relógios das estações. Dos segredos que as habitam.



Parti cedo, do Porto, linha do Tua acima.
Partíamos. Ainda não sabíamos mas partíamos juntos.

Em direcção ao mesmo lugar e com a mesma paixão. Com as mesmas palavras de homenagem.

E da janela do comboio, horas antes de nos conhecermos, pousávamos o olhar na paisagem emocional. Na geografia de afectos da nossa infância. O rio, não era apenas o Douro. Era uma linha sinuosa. Movimento, compasso, embalo. Galgando distância. Lentamente.

Era o nosso comboio por entre fragas giestas e rosmaninhos.

Um sol morno de Março. Carruagens cheias de partidas e regressos. E, sem sabermos, dávamos conta da quase primavera pelos mesmos sinais. A casca das árvores, a cor da terra, o sorriso altivo dos montes. Ainda não tínhamos trocado uma palavra e já Trindade Coelho nos tinha adormecido. À mesma hora. À lareira. Em contos de encantar.


Conhecemos tão bem o mesmo calor seco e apertado que se renova com as searas.

As lamurias dos ribeiros. A linguagem dos xistos vermelhos que ardem pousados no Verão.
Ambos sabemos como é sagrada a sombra da figueira. O corso do rio. A vindima.

É inevitável. À porta dos dias dez de Março da minha vida, tu sais do museu vivo que tenho cá dentro. E nem os milhares de letras que nos escrevemos, em cartas de papel,
te tornam tão presente.
Exactamente como naquele dia em que comemoramos o centenário da linha-férrea do Vale do Tua. Com palavras, sonhos, a mesma paixão. A mesma linha a ligar-nos os dias.

O coração sibila e dele sai um cavalo de ferro.
Sem freio, sem destino, lotado de afectos.


[para o meu querido amigo Jorge; até e para além do nosso reencontro... que acabará por acontecer]
Imagem: Helena Costa

7 Comments:

K said...

Sem freios é a beleza do teu texto!

E que essas viagens sejam sonhos a realizar...em breve!!

Dalaila said...

o teus texto faz-me moldar nos carris.... lindo Marta, lindo!

Flipmora said...

Chu-chu-chu... The Love Train... Perdão pela brincadeirita... Gostei muito. Muito bom.

Claudia Sousa Dias said...

lindo, como só tu sabes escrever.


CSd

Anónimo said...
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Eduardo Trindade said...

Ah, minha amiga, que lindas essas palavras-lembranças! Muito lindas, mesmo! Não digo nem analiso nada: apenas sinto com um sorriso terno no coração...
Também eu adoro comboios - que aqui chamamos de trens, embora não sejam comuns. Apesar disso, já andei em alguns por este mundo afora. E sabe que eu também compartilho o sonho de uma grande viagem assim? Quem sabe o que os trilhos reservam aos viajantes?

Marta said...

Quem sabe, Eduardo :)
Senti as tuas palavras sentidas!

Obrigada, Claudia. linda!


...é mesmo um Friendship Train, até que a morte nos separe...porque isto de ser separado por desencontrois...
obrigada Filipe!

Dalila: linda és tu :)

K: Tomara que sim! Em breve!