terça-feira, março 17

Sonhos sinalizados e outras desventuras



Tirar a carta de condução foi, sem ironia, das coisas mais difíceis que já fiz na vida. Não a tirei aos 18 mas sim muitos - vá, alguns - anos depois e em circunstâncias quase secretas que não interessa agora explicar. Recorrendo às siglas da História, a minha vida pode dividir-se num a.c e num d.c – antes da carta e depois da carta.
Antes da carta, por exemplo, fui chamada, após me ter candidatado a novo trabalho.

- Parabéns. Foi a seleccionada. Vamos agora acertar o seu vencimento. Contas feitas, não fica a perder, pois, optamos por lhe atribuir uma viatura da empresa, diz-me, o director geral.Tentei, por diversas vezes interromper, enquanto ele divagava sobre a marca do carro, a rodagem do carro, o motor do carro…

- Desculpe, disse, levantando o dedo, como se estivesse na sala de aula! Eu não tenho carta por isso não preciso do carro.

Dez minutos após ter sido demitida fui despedida! Verdade.

- Inimaginável. Está a brincar comigo! Como é que não tem carta, perguntava o director, braços no ar, colérico, quase aos berros!

- Como é que não tem carta? Explique-se!

Em nenhuma linha do meu CV diz que tenho a carta de condução, disse-lhe, advertindo-o para o facto de me estar quase a gritar. Tinha o direito de se indignar, mas de me gritar, não. Levantei-me para me ir embora, deixando-o a falar sózinho.

- Espere aí. Por favor. Desculpe.Vamos lá negociar isto, novamente. Mas tem de tirar a carta. Mas como é que não tem carta?

Anos, muitos anos mais tarde, após este episódio, em circunstância quase secretas fui tirar a carta. Converteu-se numa questão de vida ou morte. Também numa questão de honra. E a honra, como sabemos, é uma questão antiga e muito séria na vida das comunidades e das pessoas. Não foi a condução que me custou. Foi o código. O código da estrada conseguiu deixar a minha auto-estima de rastos. Um dia, no fim da aula, o técnico perguntou: alguém tem dúvidas? Levantei o dedo, mais uma vez como na aula! Muito senhora da minha pergunta.

- Porque é que este sinal se chama Cruz de Santo André?

A gargalhada geral, estridente, reduziu-me a alcatrão. Senti-me uma nódoa. Uma nódoa com dúvidas. Mas uma nódoa. Fui aconselhada a não fazer perguntas. Que decorasse. Aquilo era uma questão de decorar. Mais nada.

- Ninguém quer saber porque se chama assim. Ensino o código há mais de vinte...vinte anos e nunca me fizeram essa pergunta! Decore. Intressa lá o porquê do nome da cruz!

E, caso não acreditasse em milagres, tinha motivo para me converter. Lá consegui induzir a cartilha. O vulgar pisca é «um sinal indicador de mudança de direcção». O eixo da faixa de rodagem, «é uma linha longitudinal, materializada ou não, que divide uma faixa de rodagem em duas partes, cada uma afecta a um sentido de trânsito». A auto-estrada é «uma via pública destinada a trânsito rápido, com separação física de faixas de rodagem, sem cruzamentos de nível nem acesso a propriedades marginais, com acessos condicionados e sinalizados como tal». E a todas estas definições juntou-se uma panóplia de significados que, naquele período, abalaram, obviamente, o meu mundo! Até os meus sonhos. Neles passaram a mover-se automóveis, motociclos, moto cultivadores, quadriciclos, ciclomotores, tractores agrícolas, velocípedes, tractocarros e reboques. Até o triciclo da minha infância deixou de ser encantador! A matéria onírica expandira-se. E, literalmente, os meus sonhos eram sinalizados por cruzes de Santo André e afins. Eu. Eu que nunca tivera sonhos sinalizados! Ele era contra-ordenações graves e muito graves. Toda a espécie de coimas! Cilindradas superiores e inferiores a 50 cm3! Ele era taras e pesos brutos, pontes, túneis e velocidades. Um conhecimento inútil e sofrido. Muito duro.
Até ao dia em que me sentei, pela primeira vez, ao volante de um carro – sim, poderia voltar a chamar-lhe simplesmente carro – e, feliz, passei a ponte da Arrábida, comigo ao volante. Quando, a dez dias, do exame de condução descubro - quer dizer - descobriram... que só sabia conduzir… para a frente... e mudei de instrutor...
- Quem é o seu instrutor?
[a saga continua... escrito em 2005, a propósito do novo código da estrada]

7 Comments:

Woman Once a Bird said...

Como te compreendo! Também tirei carta mais tarde; depois da faculdade, quando podia efectivamente meter-me a conduzir um carro que fosse meu.
Odiei o processo. O código e a condução. O instrutor idiota (o primeiro) que me dizia que os homens têm um dom natural para a condução, coisa que as mulheres não têm (deve ser uma das nuances da adaptação ao meio). Enfim. Compreendo-te, querida Marta. :)

K said...

Seja lá qual foi a circunstância secreta que te levou a tirar a carta, será caso para invocar um milagre? É que, se calhar, começo a acreditar!!!Que isso de ter como matéria onírica sinais,trânsito e carros é muito aborrecido. Da última vez que sonhei com esse assunto fiquei sem os quatro pneus do meu!(Ainda não fiz uma interpretação ao ponto de deixar Freud satisfeito!Mas hei-de fazer!)
Mas se isto é uma desculpa para não me dares uma boleia no teu novo Gran Torino...Esquece - eu sou homem para arriscar!

Devaneante said...

Retirado da net (pesquisa com o google): '... o símbolo do cruzamento é uma "Cruz de Santo André", devido ao referido santo ter sido crucificado em uma cruz nesse formato...'

Afinal há uma explicação, o instrutor é que era um bocadinho para o ignorante...

Dalaila said...

Minha querida, eu ao contrário de ti, sonhava com o dia que pudesse conduzir, de facto se calhar por viver em Guimarães....
e naquela altura há uns anos atrás eram dificeis as comunicações.
Eu que estudava em Viana e tinha os meus treinos de volley, tinha que me por a caminho várias vezes por semana.... e de facto eram horas e horas em transportes públicos... uma hora Guimarães famalicão em autocarro... com todas as paragens, uma hora de espera... 2.5 horas de comboio até viana, com paragens obrigatórias em todos os apeadeiros... por isso a minha viagem só de ida demorava 5 horas... diria que era mais rápido chegar a Paris! e quando eu tinha que fazer viagem de ida e volta no mesmo dia, quase que podia ir a Cuba! Daí e também por amar carros.... ansiei o dia que me pus ao volante.... e contente por ter um irmão fantástico que emprestava o carro à irmã.

Beijinhos

sonja valentina said...

... que grande aventura, Marta!!!! mas pela boa dose de riso que já me proporcionou, já valeu a pena.
obrigada!!!! =))

Claudia Sousa Dias said...

e já sabes o significado da expressão Cruz de santo André?

csd

Marta said...

Querida WOB: eu sabia que me irias compreender :)

K: não vamos por Freud! teremos uma discussão imensa. Interminável e, às vezes, MUITO FURIOSA :)

Devaneante: obrigada :) sabes que, em silêncio, obviamente, sem perguntar nada a ninguém - aliás, acho que não voltei a perguntar
nada, tão cedo, após aquele episódio - fui fazer o mesmo que fizeste e encontrei o mesmo resultado :)

Dalaila, querida: contigo nem carros, nem futebol, princesa!
Era meter-me "pela madeira adentro"!!!!
Haverá homens que não discutem essas matérias com tanta sabedoria como tu :)

Sonja: ainda bem que gostou :) rir é de facto o melhor remédio :)

CSD: sim, minha linda, e o o Devaneante colocou-a mais ali para cima :) ès tão distraída. Ganhas-me :)