segunda-feira, março 23

O rapaz que [quase] nunca usa gravata


A well tied tie is the first serious step in life.

Oscar Wilde





Será? No lo creo...



Há quem a adore, quem a odeie e quem lhe fique indiferente. Há quem goste de a usar de vez em quando, quem não saia à rua sem ela e quem não a suporte! Há quem...

Ele, ao que se sabe, atravessou casamentos, funerais, baptizados, licenciaturas, defesas de mestrado, teses de doutoramento, certos aniversários, festas diversas, recepções lúdicas e laborais, enfim, as mais distintas reuniões sociais, sem nunca a usar. Porém, um destes dias, para espanto de familiares, amigos, namorada, colegas de trabalho, ele surge de gravata! Tinha-se vergado às ficções sociais. Sim ficções sociais, dizia ele!

Depois soubemos a verdade. Porque a verdade é como o azeite, diz o povo. Foi chamado por um superior

[um superior, creio, é assim uma espécie de deus, e como deus que se prese, omnipresente, que há nas organizações/empresas, com plenos poderes, realmente muito poderosos - perdoem-me o pleonasmo -tais como interferirem em assuntos como o mencionado... ]

- Veja lá. Este projecto é muito importante para nós. Tem de ser aprovado. Como coordenador científico e dada a importância do acto, far-nos-á o favor de colocar uma gravata! E não se escude no facto de os arqueólogos serem alérgicos a tal adereço. Por favor…Isto não é nenhuma escavação! Está muita coisa em jogo. Sabe disso. É muito importante e, por muito que lhe custe a aceitar, uma simples gravata ou, no seu caso, a ausência dela, pode deitar tudo a perder. Ou quase, vá… Mas fala-se, aponta-se, comenta-se. E depois, há a inauguração, não se esqueça. O senhor presidente, ministros, assessores, assessores de assessores, secretárias, secretárias de secretárias. Muita gente. Vai estar lá toda a gente! Concorda que há uma imagem a defender...há um dress code. Enfim... Custa-me, acredite, ter de lhe dizer, assim, mas terá de levar uma gravata. É uma inauguração, não uma escavação...

O pasmo geral. A namorada a cochichar para o lado

- Eu só o tinha visto vestido ou despido. E quando digo vestido quero, objectivamente, dizer de calças de ganga e t-shirt ou calças de ganga e camisa ou calças de ganga… Será que algum dia o voltarei a ver de gravata? Não, não me custa nada que não a use. Palavra que não!

Estavam lá todos. Toda a comunidade local. Cidadãos e políticos. Amigos e familiares. Cortaram a fita. Inauguraram a coisa. Aplaudiram. Sorriram. Comeram o croquete!

No fim, o rapaz que quase nunca usou gravata, pegou na tesoura e cortou-a. A meio. Como à fita!

Para "inaugurar" a primeira vez que a usou! E inviabilizar a próxima vez que a pudesse usar!

[e desculpem qualquer outro delírio :)... é que isto aqui entrou em piloto automático...]

10 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

Gravatas… cá por mim, usei-as desde muito cedo. Porquê? Já não sei! Em determinadas ocasiões usava-as por superstição. Receava que se assim não fizesse, a ‘coisa’ poderia correr mal. Até que… não, não cortei a gravata ao meio! Cortei o mal pela raiz. Ou melhor, cortei pelo nó. Ou melhor ainda, nunca mais dei o nó. Da gravata, entenda-se… e agora, é com piloto automático: casaco não força a gravata!

Luis Bento said...

Há vida em marta sim! Estranhos desígnios me trouxeram a este espaço...bom gosto, ironia, inteligêcia... e..chega de elogios. Vou seguir..sem gravata claro!

Flipmora said...

Muito engraçado o texto. Já me debati em tempos com uma vontade semelhante. Usei gravata alguns anos... E confesso que sempre achei um tanto ou quanto ridículo usar-se uma faixa de tecido à volta do pescoço e a enfeitar o espaço entre as abas do casaco... mas os códigos de vestuário assim o exigem... Entra mais vezes em piloto automático. Sabe bem, não sabe?

K said...

Nem sabes o quanto achei fantástico este delírio ornamental!!! Quase caso para dizer que "gravatas (não) há muitas!!"

Objectiva.Mente said...

Olá Marta
Já vi que andaste entretida no meu blogue. è sempre um prazer...
Sobre gravatas, nunca usei. Recorri áquelas camisas sem colarinho, enfim, uma saida airosa, mas também nunca tive que cortar nenhuma fita.
Por mim, se as pessoas se sentem bem com elas sem ser por obrigação ou snobismo parolo, apens como um adereço como tants outros, então que as usem.Com bom gosto, claro, embora isto seja subjectivo.

Elipse said...

São constrangimentos sociais. Mas não deixam de ser constrangimentos!

* hemisfério norte said...

ah
é sempre assim quando entra em acção o piloto automático
:)
(adoro oferecer gravatas)
:)
bjs
ana

Paula said...

Gosto de gravatas neles e em nós:)
Ainda bem que já conseguiste fazer login no meu blog. Fiquei sem saber quem era :)
Abraços

jg said...

Os códigos de conduta social, não deixam de surpreender.
Positiva e negativamente.
Como as coisa apenas têm a importância que lhes atribuimos, dificilmente se conseguem consensos.

Anónimo said...

E que palavras guapíssimas :)


E