domingo, março 1

Eterno Verão a pedir arde

Creio que foi nos meus lábios que aprendeu a gostar de cerveja. Foi no seu corpo que aprendi a inocência ou regressei a ela como a um búzio. Nenhum homem pode suportar, em voz alta, recordações tão intensas como a ternura em carne viva. Ou o amor por acontecer.
O que escrevo é para ela. Não para a Maria Helena desta noite. Mas para a Maria Helena de todas as noites desde aquele dia. Ia ter com ela à escola de granito e janelas vermelhas. Sexo feminino, de um lado. Masculino, do outro. Já há muito tempo que eu lá tinha andado. E, agora, voltava sem nada do que aprendi nos livros.
-Vem cá. Empurra. Com muita força para que eu possa tocar no ramo da árvore. Com muita força…estás a ouvir?
E sentava-se. Acomodava-se no baloiço, entalava o vestido de baixo das pernas; ainda em terra, colocava os pés em pontas, como se fosse bailarina.
- Já. Empurra! Com muita força. Se à noite viesse andar de baloiço, aposto que conseguia tocar com a ponta do pé numa estrela.
- E se não houvessem estrelas, nessa noite?
Já não me ouvia. Em pontas, ganhava altitude até tocar o galho da árvore.
Haveria de partir. Sempre o soube, mas sempre me vi a partir com ela. Quase mulher pedia-me a mão como se fosse a criança do baloiço; escuto o chiar do metal ao vento. Parque de plátanos a contar os dias. Analepse de Verão.
-Vamos passear.
Naquele dia pediu-me um abraço. Pude sentir-lhe os seios, de leve, no meu peito.
Como água a pedir sede.
-Estava a ver que não! Foi muito mal?
Ela entalava-me, assim, como ao vestido, debaixo das suas pernas. O melhor daquele beijo foi saber que o desejava. Como aos meus braços à sua volta. Como ao mundo, por ver.
Regressamos à vila. À esplanada onde o Outono chega mais cedo.
- Pede uma cerveja, que a quero provar nos teus lábios.
Sorri-lhe.
- Leninha, que disseste à tua mãe, naquele dia?
- Maria Helena. Já sou uma mulher e…
- E…
- E, esta noite, mesmo sem estrelas quero tocar numa. Com os pés em pontas, como se fosse bailarina. Entalar o vestido nas tuas pernas, sentar-me, como se fosse andar de baloiço. O que disse à mãe não é importante. E o baloiço já nem sequer existe. Só a memória.
Só o teu sorriso quente no meu rosto. Eterno verão a pedir arde.

3 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

que bonito.

é teu, claro...



csd

Elipse said...

:)

este teu pedacinho de prosa é de outros tempo, marta.
lembro-me que foi em Aveiro que te conheci. Em boa hora.

Anónimo said...

Tão sensual;
Tão eterno;
Um fogo que arde lentamente na pele, no sorriso, no Verão, no Inverno...Arde onde quiseres que arda.