segunda-feira, março 16

A carta de amor


«Os Cus de Judas». Chama-se assim o primeiro livro que li do escritor. Depois outros e outros e outros e ainda outros. «Arquipélago da Insónia» espera-me, desde o Natal, na pilha de livros a ler. Na secretária do escritório, em casa. «D´este viver aqui neste papel descripto», foi devorado, quase ininterruptamente. Li-o com aquele sentimento de culpa de quem, presumo eu, espreita pelo buraco da fechadura ou encosta o ouvido à parede. Mas que, no entanto, não se arrepende de o fazer. Pior. Fá-lo repetidamente! Sim. Gosto de biografias e de livros - correspondência! Quem me ofereceu este, sabe o que me ofereceu: uma ostra com duas pérolas: o autógrafo do autor e a carta que deixo aqui. Todas as cartas de amor são ridículas, disse o poeta. Mas esta é a carta. A carta de amor. A mais rídicula e [im] perfeita carta de amor que alguma vez li. Pela mão de um dos meus autores de eleição.


Meu amor querido
Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha margarida meu gerâneo minha princesa aristocrática minha preta minha branca minha chinesinha minha Pauline Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha heroína de Racine minha ternura meu gosto de luar meu Paris minha fita de cor vício secreto minha torre de andorinhas três horas da manhã minha melancolia minha polpa de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu domingo de Ramos meu Setembro de vindimas meu moinho no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário minha história de quadradinhos meu recife de Manuel Bandeira minha Pasargada meu templo grego minha colina meu verso de Höderlin meu gerânio meus olhos grandes de noite minha linda boca macia dupla como uma concha fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão de ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre ruínas minha Grécia minha maré cheia minha muralha contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu pequenino queixo zangado minha transparência de tules minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha harpa meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para o mar meu manjerico meu cravo de papel minha Madragoa minha morte de amor minha Karénine minha lâmpada de Aladino minha mulher.
António Lobo Antunes in D`este viver aqui neste papel descripto

5 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

porque o amor, no fundo, é 'um escorrer sem fim'... e porque quando gostamos, gostamos de por dentro do que gostamos, tudo quanto gostamos e precisamos sentir 'meu'...

K said...

Sem fôlego…de tanto amor!

Claudia Sousa Dias said...

vou desafiar o meu poeta a ler-me isto, mais logo...



:-))


csd

Flipmora said...

Grande António, Grande Lobo e Grande Antunes...

Marta said...

Passos,
é de nos arrancar todas as palavras.até as que não existem, ainda. amor, é isto! ALA sabe.sentiu e escreveu.
para que nos deliciemos.

K, e então, se não há folgo para o amor...? Ou foi tanto amor, que te deixou sem fôlgo? [perguntas retóricas, não quero cá saber de intimidades:)]

CSD, sim. é um bom começo ;)

Filipe, encantada...com o poder de síntese. Posso subscrever?