sexta-feira, março 6

Como se filma?


«Façam luto à literatura!» [lembras-te?] E o nosso olhar voltou a sintonizar-se num espanto.
Foi no tempo em que fomos aprender a escrever guiões, como se não os tivéssemos todos cá
dentro. O problema é que estão cheios de literatura ou lá o que é.
Tu, com «aquele chão conhecia-lhe os passos», deste a deixa ao professor.
E como se filma? Como é que se filma um chão assim? [lembras-te?]
Ele a perguntar e a dizer que não se escrevem essas coisas. [para os filmes]
É de madeira? É de pedra, de terra?
Toda a gente sabe como é um chão que conhece os passos de alguém. Mas, pronto!
[ainda não tenho o fim. ainda não sei como vai acabar, não é bom, pois, não? desde que me
ensinaste o que aprendeste, tenho desvalorizado os princípios. estou concentrada no fim, mas ainda não o vejo. tem de ser o mais importante. o fim.]
Aprendemos tanta coisa, enquanto nos prendemos. Enquanto nos ligamos.
Ou estaríamos só a restabelecer filamentos ancestrais. Arquétipos de sonhos comuns?
«Frágil, viva, sempre em mudança, o guião é a crisálida». Ou serias tu?
Não me demorei a ver-te as asas. Mas, a tua aparência era assim: frágil, viva, em mudança. [como os guiões. como a vida.]
Queres vir? «Eu vou. Não sei se vá…Não sei se fique...»
Como se filma a hesitação de uma borboleta decidida?
[longe da literatura. foi o que anotei. porque luto, luto não fui capaz].
O signo, o fonema, o grafema. É cinema. [lembras-te?]
Técnica. Line-up. Out-line. Aprendemos muitas coisas. Planificações. Story-board.
Escrever cenas. Ordenar cenas. Inventar elipses. Alternar o dia e a noite.
[como se na vida real não fosse assim!]

Desejo + obstáculos = emoção.

Matemáticas de aparente equação fácil.
[talvez tenha começado a fazer estas contas muito cedo!]
Agora, vão para casa, leiam o jornal e inventem uma personagem. [queria dizer vida, mas disse jornal; lembras-te?]
A partir da notícia, inventem uma personagem e tragam-na já construída. [ele queria dizer vida. mas enganou-se, novamente e disse notícia. lembras-te?]
Única, com coerência, profundidade, acção. Narrativa. Transformação. Tensão.
Não se esqueçam que a personagem é mais do que aquilo que está ali, na história.
[se é! Se és. Muito mais do que nas nossas histórias. Agora ele acertou, o professor.]
E nós a aprender como se faz, como se filma.
E eu cada vez mais convicta de que os filmes são exactamente como na vida.
[menos quando precisas de um táxi com urgência, e esticas a mão...]
Nunca nada me parece de filme. Parece-me sempre tudo de vida!
E tenho motivos. Tantos motivos. A vida tem milagres. Milagres e assaltos.

Como se filma a minha vida sem o dia 27 de Janeiro do ano
em que fomos aprender a escrever guiões?
Como se filma o nosso olhar a sintonizar-se num espanto?
Como se filmam as tuas asas a percorrer as nossas vidas?
Como se filma toda a ternura que pousas sobre nós?
Como se filma a minha vida sem os teus passos?
Diz-me.
Como se filma?
Ps: este texto, escrito em Dezembro de 2008, foi alvo de pequenas alterações mas o destinatário mantêm-se. Obviamente :)

8 Comments:

Funes, o memorioso said...

Não se filma, que o cinema é uma arte menor.

Anónimo said...

Discordo do comentador de cima.
O CINEMA É ARTE.
Gostei de a ler mais uma vez.
Estava era aqui a pensar como se filmam os dias sem o seu blog.
Espero que não desapareça, como no outro.
CF

PAS[Ç]SOS said...

Como se filma? Ligando a máquina e deixando a vida passar em frente dela. Os dias encarregar-se-ão de escrever o guião, as emoções escolherão os planos e talvez o realizador nem precise de ler o jornal, com a notícia da sua demissão.

Marta said...

Explique-se, Prof.! Arte menor. Porque é par si uma arte menor, o cinema?

Agora fez-me recordar de Eugénio de Andrade que disse de Pedro Homem de Melo ser um poeta menor.
Eu, que gosto de Eugénio de Andrade, fiquei triste com o discurso. Foi Há muitos anos, talvez em 1989! Não estou certa.

Podemos gostar ou não.

Qual é a medida da centelha de um génio?

Os seus comentários, assim, nada fundados, é que fazem de mim uma filha de um deus menor!

Gostei da sua resposta Pas[ç]sos :)

Anónimo said...

E como se filma um sorriso de dentro? Como se filma a vontade de um abraço? Como se filma? Como se filma a paz? E como se filma quem não quer ser filmado? (isso eu e o M bem sabemos...)... Como se filma? Escreve? Diz? Eu não sei...só sei que o filme da sala ao lado, não é melhor do que este...
Sempre
E.

Funes, o memorioso said...

1- Caro anónimo do segundo comentário, afinal parece que estamos de acordo. Eu também acho que o cinema é arte. Menor.

2- Porque é par si uma arte menor, o cinema?
Dedicarei um post ao tema. Mas talvez tenha que corrigir o tiro. Para ser correcto, eu não direi que o cinema é uma arte menor, mas uma arte ainda em formação, que ainda não atingiu a maioridade (e, nesse sentido, menor). Daí que, no cinema, tanta gente se renda a coisas perfeitamente absurdas, como se fossem obras de arte. Recordo, por exemplo, que os filmes "Ghandi", "Amadeus", "Titanic" ganharam óscares, como se fossem obras de arte. Mas nem isso não é muito grave, porque também houve quem sugerisse o Torga para prémio Nobel.
Grave (em termos de menorização do cinema) é verificar que quando pergunto aos meus alunos qual é o filme da vida deles, eles me respondem invariavelmente que é o último que viram e está na moda nos cinemas. É como se à mesma pergunta na literatura se respondesse que o livro da nossa vida é o que acabámos de ler da Margarida Rebelo Pinto.
Esta infância do cinema faz com que nele não se consiga ainda distinguir aquilo que é verdadeiramente arte, busca permanentemente inacabada de uma estética, daquilo que é mera inovação estilística. Por exemplo, "Citizen Kane" é um filme absolutamente miserável. Mas como foi inovador em termos estilísticos, com a câmara em movimento a filmar de ângulos nunca vistos, é universalmente considerado imprescindível. Quer dizer, no cinema confunde-se ainda muito o novo com o bom (embora eu tenha que conceder que, no século XX, este vírus passou também às outras artes e na literatura, por exemplo, Joyce passe por ser um génio, apenas porque fez algo novo. Artificial e inutilmente novo, mas novo).
Se tivesse que escolher um filme que me impressionou, citaria, hoje, "Toy Story". E é impressionante, porque (como a Alice do Lewis Carrol) um tratado de Lógica auto-referente. No filme, de desenhados animados, os brinquedos ganham vida, quando os humanos não estão a olhar. Só que os humanos que não estão a olhar não são humanos. São desenhos animados como os brinquedos. E os humanos que estão a olhar (nós, os que vemos o filme) acreditam piamente que os humanos que são desenhos animados não sabem que os desenhos animados que são brinquedos ganham vida quando eles não estão a olhar.
O último filme que vi, digno de ser considerado obra de arte foi o Barry Lyndon, de Stanley Kubrick. Aliás, foi doloroso vê-lo, porque os meus amigos Zekez Carvalho, Arlindo do Rego e RPS me diziam maravilhas dele. E eu vi-o apenas para poder fazer um post a desancá-lo. No final, achei o filme magnífico e não pude fazer o post. Foi horrível.

Elipse said...

Ia dizer que é preciso relativizar, sempre, desde o gosto ao conceito. E que só considero a arte menor quando o filme pega no livro e não lhe põe as palavras, por ser tarefa impossível.

Porém, não me atrevo a comentar, depois de Funes.

Marta said...

Prof. Funes...
pois claro que teve de corrigir o tiro! Aguardo esse seu post e, depois, conversamos!

E.

SEMPRE.
para nós, não será um perigo dizê-lo!