sexta-feira, março 20

É segredo?




Faltavam dez dias para o meu exame de condução. O meu primeiro instrutor – Senhor Silva - era uma homem baixinho, miudinho, de bigodinho, a contar os dias para chegar à reforma. Estava quase. E usava sapatos Ecco, algumas vezes utilizados para travar os meus ímpetos rodoviários.


Na nossa primeira aula fez questão de me explicar teórica e minuciosamente como funcionavam as mudanças e o motor do carro. Depois as aulas foram iguais. Mais rua, menos rua, bem nos arrabaldes da cidade, longe da confusão. Depois, ao fim-de-semana, auto-estrada, via de cintura interna, marginal da Foz do Douro. Um dia comentei: o meu instrutor, ao sábado, faz-me conduzir até à Foz, manda-me parar o carro e sai. Regressa vinte minutos depois e a aula está no fim. Deve andar indisposto, com algum problema, pensava. Eu enfiada no carro. Ele a caminhar, lentamente, mãos atrás das costas. Entrava, cabisbaixo e dizia: siga.


- Ou conduz muito mal e o instrutor enjoa e tem de ir apanhar ar ou algo está errado nessas paragens na Foz, disseram-me, os funcionários, entre-olhando-se. Parecia um episódio familiar na secretaria da Escola de Condução. Acreditei, piamente, na primeira hipótese. Desanimei.


- Vamos trocar de instrutor. Peça isso, por escrito, que é melhor. Como se fosse iniciativa sua. Está a compreender? Vá por mim. É melhor, dizia-me a Senhora Dona Odete, levantando as sobrancelhas, acima do aro dos óculos. Acatei o conselho e, na aula seguinte, aparece-me um Senhor Fernando, alto, moreno, todo perfumado. Vivaço nas palavras e nos gestos. Por momentos, achei que íamos entrar numa corrida de automóveis, dada a sua determinação e genica. Gostava do que fazia. Notava-se ao longe. Mesmo ao longe.


-Ora vamos lá. A ver o que vale. Cinto. À direita. As indicações telegráficas continuaram. Até ao momento de estacionar, numa descida, entre dois carros. Transpirei por tudo quanto é poro. Não imaginava como fazer aquilo. O carro iria para todo o lado, menos para trás. Menos para aquele lugar balizado por dois automóveis!


- Então! Vamos lá. Quando é o exame?


- Daqui a dez dias, respondi, voz sumida, nervosa.


- Nem daqui a dez semanas, menina! Então não consegue estacionar o carro?


No fim da aula, o Senhor Fernando fez o diagnóstico: eu só sabia andar para a frente. Logo, ou eu estava disposta a um esforço suplementar ou era melhor desistir do exame. Nos dias seguintes fiz a recruta rodoviária. Aulas extra. Sobe, desce, estaciona. Estaciona, sobe, desce. Trava, arranca. Arranca. Trava. Subidas, descidas, rotundas, cruzamentos, pleno engarrafamento. Realmente, eu tinha andado afastada do trânsito. Preparavam-me, talvez, para conduzir no deserto. Um dia, foi a vez dos seus sapatos clássicos, gastos mas reluzentes, nos travarem o meu arranque ainda no sinal vermelho!


- Então, onde está com a cabeça?! A seguir, vire à esquerda.


Virei. E o Senhor Fernando, inclinou a cabeça na direcção do meu ombro, baixou a voz e perguntou, quase sussurrando: é segredo?


- Como? Perguntei, esforçando-me para não tirar os olhos da estrada.


- Se é segredo? Perguntou, agora, em tom normal.


- Se é segredo o quê, Senhor Fernando?!


- Que viramos à esquerda. Que vamos aqui, em missão secreta...


- Não... Sr. Fernando.


E, levantando a voz:


- Então porque não fez pisca?


E sempre que eu me esquecia de dar o sinal indicador de mudança de direcção, o Senhor Fernando perguntava: é segredo?


E quando ele não perguntava e eu me esquecia, afirmava: não, não é segredo, Senhor Fernando. E sorríamos cúmplices, ao ritmo intensivo de um treino exigente. Já nos últimos dias, o Senhor Fernando começou a falar da sua Laurinda, com ternura. E ao sábado de manhã, deixei de ir para a Foz. Íamos ao seu bairro. Da janela do carro, acenava para a janela do sexto andar.


-É a minha Laurinda. Dizia-me, sem segredos, como se fosse incapaz de se exaltar.


No dia anterior ao exame, berrou comigo como nunca. E eu, como nunca, nem conseguia por o carro a trabalhar! Na manhã do exame, disse-me: vá lá a fazer isto, caramba! Não esqueça: aqui não há segredos. E não houve. Fiquei tão bem treinada que, ainda hoje, faço pisca dentro da minha garagem! No parque de estacionamento! Fá-lo-ei no deserto.


Pois, então, se não é segredo!




imagem: jac.opo

14 Comments:

Miguel Vaz said...

E conduzir no Porto não é para meninos...!

Anónimo said...

Eu não acredito que os sapatos ecco do Senhor, conseguissem travar os teus ímpetos...
Como se trvam os ímetos de uma força da natureza ;)

Saudades tuas e de vir por aqui.
Sempre agradável ler-te.
bjo
Cristina M

Eduardo Trindade said...

Hummm... Cá no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, acho que deve existir uma boa porção de agentes-secretos. Só não são mais secretos porque vivem buzinando o tempo todo!
Mas eu me deliciei com tua história. Confesso que, no começo, já estava ficando com medo de passar perto do Porto (vai que eu cruzo com uma motorista assim?), mas ao final fiquei tranquilo!

Em tempo: tem uma lembrancinha para ti lá no meu blogue, viu?

Abraços!

Mushu said...

Bem... acabou mal. Porquê? Porque fiquei sem saber porque é que o outro senhor ia apanhar ar!
Ah, era segredo?

Haja alguém que não se esquece do pisca, que muita gente nem sabe que eles existem.

Devaneante said...

... e como um bom professor pode fazer toda a diferença!...

sonja valentina said...

... eu quando os vejo virar sem fazer pisca costumo dizer que certamente a carta lhes saiu mais barata....
enfim... mais uma boa dose de gargalhadas à conta das dificuldades alheias... maldade!
era grande o sr. fernando, parece-me!!!

Funes, o memorioso said...

Vou deixar de frequentar este blogue.
Hoje é o dia mundial da poesia e eu venho aqui a correr, à espera de poder desancar de alto a baixo o post que imaginei que ia encontrar neste blogue, para celebrar um dia tão idiota. Afinal, encontro apenas um belo texto.
Isto assim não vale!

Dalaila said...

Acabaste-me de me por um sorriso nas minhas bentas! e não digo mais nada....

beijinho, maravilhoso texto, e ainda bem que não ficou guardado em segredo.... é imperdível

Anónimo said...

Porque não estás cá, a escrever poemas no dia mundial da poesia?

PAS[Ç]SOS said...

É segredo, Marta, que a sua vida é uma sucessão de cenas dignas de romance ou filme?
Não é segredo a sua perspicácia e qualidade para fazer um filme a partir dum ínfimo pormenor do quotidiano.

Su said...

ahahahahah

fez.me bem..fartei-me de rir....com tuas aulas..................sem segredo

jocas maradas

Marta said...

Obrigada, Eduardo:)

Mushu: o senhor saía porque não lhe apetecia dar aulas. pelos vistos havia queixas na escola, pelo mesmo motivo! Não lhe apetecia! Estava cansado. Pura e simplesmente :)

Sonja: O Senhor Fernando, era SENHOR! mesmo!

Passos: quem me conhece, sabe que não há segredos! ponha filme nisso! longa, longa, longa metragem de cenas inacreditáveis :)uma vezes dá para rir, outras para chorar. é a vida... a deixar que os romances a copiem!

Deixei de responder a anónimos mas não resisto: só não vim para poder desiludir o Prof. Funes!

Prof. Funes: não nego estar feliz só pelo facto de o desiludir :)

Su, Miguel, Cristininha, Devaneante

obrigada,

não é segredo que é uma honrra vê-los por aqui :) a todos...até ao professor Funes ;)

carlota joaquina said...

Para mim era mais que um segredo, um verdadeiro mistério tu dares o pisca nos parques de estacionamento.
Agora, já não o é.

Marta said...

Carlotinha linda :) eu para ti...não tenho segredos:)

aquilo...está quase:)