Ou de manhã, ou à hora do almoço, como hoje!
[Terá sido por isso que inventaram o brunch?]
Também não importa. Agora.
O importante é que a sala, virada a sul, permite ao sol entrar pelas quatro grandes janelas de vidro. A varanda ampla, silenciosa. A árvore, em frente. Quieta. A minha árvore. Ninguém sabe que é minha. Mas eu sei. E ela também. E isso basta-nos. Ofereci-ma no dia em que habitei esta casa. E, desde então, tem-me revelado os segredos das estações do ano. Mas não são apenas segredos. São segredos explicados por sinais. E a primavera, por exemplo, não me chega só pelo calendário. E isso diz-me muito. É exactamente como as pessoas que conhecemos e nos dizem. Não nos chegam só pela data do aniversário.
[Esta minha capacidade inata de ir por onde não quero! irrita-me genuinamente. mesmo.]
Falava de pequenos -almoços. Com café com leite e pão com manteiga. Básico. Em qualquer parte do mundo. Ou com compota de mirtilos – a minha preferida, talvez, sem certeza, só porque existe a de abóbora - e requeijão ou queijo fresco. E fruta. E sumos naturais. Naturalmente. E jornais. Os jornais ao pequeno almoço, em silêncio. Tão bom!
Hoje, recordei-me daquele episódio que contas sorrindo, do café da manhã. Não te entendiam. [Por falar nisso, chegaste bem?]
Hoje, vieram-me à memória todos os pequenos-almoços que fizeram do meu dia, um dia inteiro feliz. E enquanto pensava em tudo isto, faltavam-me os jornais e, só por isso, fui ao escritório buscar um livro. Para que o silêncio de domingo, fosse também de palavras impressas. Como tanto gosto.
E nas páginas 112 e 113, encontrei o seguinte:
(...) Regresso a esse serão sul-americano já antigo e vejo o meu pai. Estou a vê-lo nesse momento; e ouço a sua voz a dizer palavras que eu não entendi, mas senti. Essa palavras eram de Yeats, da sua «Ode a uma Cotovia». Reli-as muitas e muitas vezes, como vós, mas gostaria de voltar a ela uma vez mais. Creio que isto agradará ao fantasma do meu pai, se ele andar por aí (...) Pensei que sabia tudo das palavras, tudo da linguagem (quando somos crianças sentimos que sabemos muitas coisas), mas estas palavras chegaram-me com uma revelação. Claro que não as compreendi. Como podia eu compreender este versos sobre pássaros – sobre animais – que são de certo modo eternos, intemporais, porque vivem no presente? Somos mortais porque vivemos no passado e no futuro – porque recordamos um tempo em que não existíamos e antevemos um tempo em que já teremos morrido.
Esses versos chegaram até mim através da sua música. Eu pensava que a linguagem era um meio de dizer que se está alegre ou triste e essas coisas. E no entanto, quando ouvi esses versos (e em certo sentido nunca os deixei de os ouvir desde então) soube que essa linguagem podia ser também uma música e uma paixão. E assim me foi revelada a poesia.
Acreditem. Este pequeno-almoço com Este Ofício de Poeta, de Jorge Luís Borges, fez do meu dia, um dia inteiro feliz. Está fazendo.


