sexta-feira, agosto 28

Saia um filme, sff


Já tenho aqui ao lado a Visão desta semana mas ainda vou falar da outra. A que saiu a semana passada. [É que não há forma de a dona deste blog me contratar definitivamente...] Os segredos do Barro Branco, uma reportagem do Miguel Carvalho. E que reportagem! Excelente. Com muita investigação, claro. Lê-se e, depois, apetece mesmo o filme. Tem os ingredientes todos! Todinhos. Nem sequer faltam dicas para o guarda-roupa da época. Nada. Nada. Tá lá tudo. Só falta mesmo quem faça sair o filme. Que a partir da reportagem, escreve-se o guião. Oram leiam, se ainda não leram. Alguns excertos e, creio eu, não restam dúvidas.


«Joaquim Ferreira Torres, industrial e financiador da rede bombista de extrema-direita, foi assassinado a 21 de Agosto de 1979. A morte serviu conveniências privadas e políticas. Mentores e autores não foram descobertos. O crime prescreveu. Trinta anos depois, a VISÃO traz a público novos dados e documentos.

Esta é a história de um homem controverso, de fortuna suspeita, que tentou cair nas graças do fascismo, deu dinheiro à oposição democrática, tirou comunistas da cadeia e ajudou “pides” e empresários a fugir. Um dia, ameaçou “abrir o saco” e calaram-no. A tiro. Por Miguel Carvalho Naquela manhã, Joaquim Ferreira Torres levantou-se mais tarde do que o habitual. Normalmente, estaria a pé às seis horas. Mas o jantar terminara para lá da meia-noite e ele havia passado a madrugada com dores na coluna. Estava, contudo, bem-disposto ao pequeno-almoço. Era Verão e a família mudara da vivenda das Antas, no Porto, para a sua Quinta de Vila Nova, em Penafiel. A mulher, Elisa, ia para as termas de São Vicente, ali perto. O marido continuava a fazer o percurso diário entre a casa e a fábrica têxtil de que era proprietário, em Famalicão, ignorando o significado da palavra férias.Apesar de discreto e reservado, regressara uma das últimas noites carregando uma mala com mil contos, fruto de um negócio com ciganos. Atarefado, nem deu importância ao facto de naquele período alguém lhe rondar a quinta, questionando os caseiros sobre as suas rotinas. Estranhara apenas as avarias no telefone, quase sempre ao final da tarde. O aparelho parecia ter vontade própria e os técnicos tardavam em descobrir o defeito.Tal não o impediu de marcar o referido jantar. Encomendara uns melões no restaurante Tanoeiro, em Famalicão, onde almoçava amiúde. O tenente-coronel Oliveira Marques e a esposa eram esperados à noite, vindos de Lisboa. Torres juntou à mesa a mulher, o “Quinzinho” - sobrinho que criou como verdadeiro filho desde os onze meses após a morte de um irmão - a irmã Sãozinha e o cunhado Mota Freitas, major da PSP, entre outros familiares. Antes e depois da refeição, os homens reuniram no escritório. Oliveira Marques foi embora já passava da meia-noite. Quando acordou, mal dormido, Torres vestiu uma camisa, casaco e calças claras, tipo caqui. Apertou o cinto de cabedal vermelho e calçou uns sapatos castanho claros picotados, de pala. No pulso, um Ómega de ouro. Num dedo, o anel, também em ouro, com brilhante de sete quilates. Guardou a carteira com umas dezenas de contos e numa pequena pasta preta colocou vários documentos, cerca de 42 mil pesetas e duzentos marcos. No casaco, levava a inseparável caneta em ouro e a agenda, recheada de contactos. Na lista, nomes de homens de negócios, policias e militares de várias patentes, velhos conhecidos do antigo regime, cónegos, políticos e cadastrados. O industrial fez-se à estrada no seu Porsche vermelho 911 T, por volta das oito horas. Em Paredes, comprou os três matutinos do Porto e seguiu viagem. Três quilómetros à frente, na estrada nacional que liga Paredes a Paços de Ferreira, talvez vendo um rosto familiar, abrandou. Numa emboscada de execução tipicamente militar, desconhecidos, munidos de armas pouco habituais no País, disparam contra ele vários tiros, atingindo-o sobretudo no crânio. Torres tombou, morto, para o lado direito do condutor. Passavam quinze minutos das oito horas do dia 21 de Agosto de 1979. O Porsche contava mais de 77 mil quilómetros. Duas jovens iam comprar vinho quando deram o alerta. Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos, negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos, económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que “abriria o saco” sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como “o crime do Barro Branco”, lugar onde o calaram para sempre.


A ascensão, “à americana”


Até ali, ele tinha granjeando fama e fortuna vindo do nada e do esquecimento, ao estilo do mito americano. Nascera no simbólico 13 de Maio, em 1925, em Rebordelo, Amarante, um de 17 irmãos. Fez o ensino básico e vendeu carvão em Vila Pouca de Aguiar, onde o pai trabalhou nas minas. Também passou madeiras para Espanha, clandestino. Foi marçano numa loja de mercearias finas e, no final dos anos 40, já andava por terras transmontanas, de bicicleta ou motorizada, como comissionista e vendedor de rifas, ganhando bom dinheiro com sorteios de chocolates e navalhas.Em Murça, conhece Elisa, da aldeia de Noura, com quem haveria de casar. A rapariga trabalhara numa padaria e era governanta. “Uma lasca de mulher, muito cobiçada”, diz quem a conheceu. Namoram pelos quintais. E ela é sua cúmplice nas fugas à polícia que metiam saltos pelos telhados e esconderijos em tonéis de vinho. Os mandados de captura contra ele sucediam-se. E do tribunal de Chaves desapareceria, mais tarde, o seu registo criminal, que incluiria um historial considerável de abusos de confiança.Nos anos 60, já negociante de vinhos em Rio Tinto, Torres abre em Angola armazéns “com tudo do bom e do melhor para comer e beber”, segundo um antigo inspector da PIDE. As relações e os negócios fluem. A partir de 1964, Sousa Machado, empresário, recorre a ele para fazer face a problemas económicos na Companhia Mineira do Lobito e nos hotéis Presidente e Panorama, em Luanda. Ao longo de anos, pedirá montantes da ordem dos 200 mil contos, empréstimos cuja totalidade não liquidará até à morte do amigo. O filão, porém, é o tráfico de diamantes e divisas. Torres conhece Tschombé que, com ajuda da CIA e de diversos mercenários, tenta a secessão da província diamantífera do Katanga, no Congo. Quando o líder africano cai em desgraça, Salazar – que lhe cedera armas – dá refúgio aos familiares. Mas será o homem de negócios de Amarante a velar pelos interesses dos herdeiros de Tschombé. E pelos seus, claro.Torres regressara com uma fortuna incalculável.Deposita lingotes de ouro na banca e dedica-se à especulação bolsista, mantendo laços com amigos de África. Os bancos disputam-no e negoceia, fazendo-se caro. “Já ganhei mais mil contos!”, ouviam-no, ao telefone, com gestores e administradores. Entre outros investimentos, compra terrenos, uma tipografia, uma casa de câmbios e chegará a ser dono de 27 quintas no Norte do País. Passeia-se num Jaguar 4.2, anda de Porsche e num Mercedes amarelo 350 SLC, desportivo. É amigo do banqueiro Pinto de Magalhães e do empresário Xavier de Lima, quase dono de Setúbal, a quem ajudaria a recuperar a fortuna. É avalista de negócios no turismo e outras áreas. Credor dele, Sousa Machado abre-lhe portas nos meios políticos e militares. Hábil e desconfiado, anota tudo. Dos 110 contos que gasta nuns botões de punho a uma pulseira para a mulher no valor de 90 contos. O círculo íntimo sabe apenas o estritamente necessário. É de fúrias e impõe rotinas de forma quase militar, sem transigências. Rigoroso, manda repetir textos à máquina por causa de vírgulas. Na ascensão meteórica, cultiva gostos a preceito. Os fatos e sapatos são feitos às dúzias, por medida, nas melhores lojas de Santa Catarina, no Porto. De Londres, traz tecidos, sem falar mais do que o português. Em casa, cultiva uma decoração imponente e aparatosa, com móveis franceses, que convidados classificam como “neo-barroco da burguesia”. Os jantares são opíparos e a garrafeira não destoa. Comprara mais de cem garrafas de Barca Velha, ao preço de muitos ordenados da época. Preferia colheitas de 64 e 65. Ou um Faustino I, Rioja, de 66. Se acompanhassem uma perdiz cozinhada pela mulher, tanto melhor.Conquistado o estatuto financeiro, ao ritmo de “pronto-a-vestir”, Torres procura a legitimação social que lhe faltava. Os seus ciúmes tinham um nome: Gonçalves de Abreu, comendador, dono de um império industrial, figura prestigiada, presidente da Câmara de Amarante. A autarquia e uma comenda eram o seu sonho. Ele esmera-se. Em finais dos anos 60, compra a fábrica têxtil Silma, em Famalicão à família do destacado anti-fascista e comunista Lino Lima. Por mais de uma vez fará uso dos seus contactos para tirar o advogado dos calabouços da PIDE. Na Silma, onde a sirene marcava os ritmos das gentes de Brufe e Calendário, Mário Sousa, Maria de Sousa e Maria da Glória somaram 66 anos de trabalho. “O senhor Torres foi um bom patrão. Tinha as suas manias, mas pagou sempre os ordenados, mesmo quando esteve preso e fugido”, contam. A sindicalista Ondina Coutinho travou com ele braços-de-ferro, a doer. “Nada era dado sem luta. Mas tivemos condições de fazer inveja na região”.
[...]
Colecciona medalhas de benemérito e benfeitor. Mas antes de tudo isso, já tinha um convite irrecusável… A comenda que não veioTorres é nomeado para presidir à Câmara de Murça em 1971. Influências de um amigo salsicheiro a quem emprestara dinheiro. As verbas que faltavam ao município e que o Estado, somítico, não libertava, tinha-as ele. A terra dá um salto, ganha urbanidade. Oferece a cada morador um balde de plástico para o lixo que uma viatura camarária recolhe diariamente. Na rua, homem cénico que era, gesticula e dá ordens. “Exercia o mando, tinha dinâmica e visão”, assinala José Gomes, antigo presidente da autarquia. Manda electrificar aldeias, abrir caminhos, construir estradas. Aparece de surpresa nas freguesias e, “quando a verba se encontra esgotada, abre a bolsa e resolve os problemas”, contava o seu vice-presidente.
Deu vida a lugares isolados, escolas. “Foi um santo homem. Quem não é agradecido é melhor não andar neste mundo”, rende-se o lojista Alfredo Meireles. Adianta dinheiro que o Estado lhe pagará depois, aos bochechos. Cria uma extensão da sua fábrica têxtil, dá terrenos pessoais para a construção de casas e inaugura uma piscina de fazer inveja na região. “Com ele, Murça seria a Suíça de Trás-os-Montes”, crê José Gomes. [...]»

E é assim, até ao fim. De ler e pedir aos realizadores portugueses: saia um filme, sff!
imagem : google


5 Comments:

K said...

E seria um excelente filme! Tal como a reportagem! Os meus parabéns ao Miguel Carvalho por ter levantado um bocado do véu desta história!

Luísa said...

Marta,
também li, e sabes o que pensei logo,logo?
Grande arrojo o do Miguel Carvalho!será que essa "máfia" está desactivada?Não me parece! eu temeria pela vida!
Beijinho e boa sorte para a próxima "devida comédia"!

Zaclis Veiga said...

Tens razão. Me parece que o argumento está todo na reportagem (preciso ler o resto). Que tal um alguém que conheço fazer o roteiro?
:)

Zé da Lela said...

Perdoem-me a discordância: comprei a revista na ânsia de ficar a saber mais sobre uma história que já conhecia e devo dizer que fiquei um pouco decepcionado. Esperava mais e acabei por ficar com a sensação de uma tremenda decalage entre o projecto de intenções plasmado no título do artigo e o conteúdo do mesmo, um mero repositório de factos há muito conhecidos. Compreendo igualmente que não será fácil ir muito mais fundo na história mas a "promessa" estava lá e não se cumpriu.

Eduardo Santos Carneiro said...

Numa das minhas pesquisas sobre Vila Nova de Famalicão vi este post
muito interessante, não li esta reportagem na "Visão",nem sabia que tinha saído, senão tinha comprado...
Cumprimentos

Eduardo Santos Carneiro