sábado, agosto 8

Paga-me um café...


«Paga-me um café e conto-te a minha vida»

O inverno avança

nessa tarde em que te ouvi

assaltado por dores

o céu quebra-se aos disparos

de uma criança muito assustada

que corria

o vento batia-lhe no rosto com violência

a infância inteira

disso me lembro

Outra noite cortaste o sono da casa

com frio e medo

apagavas cigarros nas palmas das mãos

e os que te viam choravam

mas tu não, tu nunca choraste

por amores que se perdem

Os naufrágios são belos

sentimo-nos tão vivos entre as linhas, acreditas?

e temos saudade desse mar

que derruba primeiro no nosso corpo

tudo o que seremos depois


«Pago-te um café se me contares o teu amor»

José Tolentino Mendonça in A que distância deixaste o coração, p.27 e 28, Assírio e Alvim
imagem: Google

11 Comments:

São said...

Boa escolha!

Feliz semana.

Angélica Lins said...

Estou aqui sempre a ouvir teus poemas e os dos escritores que te agradam.
De um modo ou de outro, adoro ouvir-te, ler-te... Adoro estar aqui!!!
E com um cafezinho então... :o)

Zaclis Veiga said...

Me fez lembrar de um café de uma vida. :)
beijos

acutilante - frank verlag said...

Um café....... e com boa poesia!

Claudia Sousa Dias said...

café e letras e uma boa conversa...melhor, só gelado de manga e chocolate com topping de chocolate!

e beijos com a companhia adequada!


;-)


csd

PAS[Ç]SOS said...

Soberbo!!!

Vá lá não me obrigue a procurar mais livros... :)

Gisela Rosa said...

...este poema de Tolentino é uma maravilha! Parabéns Marta pela opção!

um beijinho

alice said...

tive o privilégio de trocar duas palavras com o josé tolebtino mendonça numa livraria, enquanto ele assinava um exemplar deste livro, e raras vezes fui invadida por um olhar tão bondoso quanto o dele... um beijinho, marta.

mfc said...

Há frases que nos desconcertam e fazem pensar.

sonja valentina said...

precisoso café... em troca de uma vida, de um amor!

fez-me recordar um certo café, perdido na minha memória, de gosto quente e que ainda perdura.

obrigada!

Luz said...

Confesso que sou suspeita..., mas, por vezes,temos que nos distanciar... A verdade é que conheço muito bem este poema assim como o seu autor por quem nutro amizade e admiração. Acompanhou uma parte da minha vida e continua a ser uma referência para mim, por isso, neste momento quero apenas dizer que adorei a escolha da Marta para este café.
Obrigada por me o recordar, pois tenho saudades.

ElsaTL