quarta-feira, agosto 26

A gente não faz amigos, reconhece-os


Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências ...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários,de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer.
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado,morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam - ou talvez nunca vão saber -que são meus amigos! A gente não faz amigos, reconhece-os.
Vinicius de Moraes
[Para o João, com um beijo de PARABÉNS, feio :) ! Tudo de BOM, hoje e sempre! Que o teu "céu" seja sempre muito azul :)]
imagem: Jonathan Blondiau

7 Comments:

João Coelho said...

Como é bom ter amigos como tú, Marta!

Beijo grande e até logo...

João

Anónimo said...

Eu estou na lista!!!
Eu sei!!!
Bj

Patti said...

E que sorte a do teu amigo, Marta.

Luz said...

Um belo texto este de Vinicius, bem conhecido e sempre certeiro nas palavras.
Foi bom recordá-lo aqui, já que o leio muitas vezes e, partilho com amigos.
A Amizade verdadeira é rara, mas ainda existe e, ainda bem que há quem o saiba.
Obrigada pelo momento Marta.

Carlos Azevedo said...

Belo texto!

Contudo, não concordo inteiramente com «a gente não faz amigos, reconhece-os.» Penso que podem acontecer as duas coisas. Em alguns casos, temos tantas afinidades e há uma química tão grande com alguém que parece que já conhecíamos aquela pessoa desde sempre; ou seja, reconhecemos um amigo. Contudo, noutros casos a amizade constrói-se gradualmente, através de um processo de conhecimento lento, mas firme, que pode dar origem a uma amizade para a vida. Não há receitas para a amizade, e esta pode surgir de muitas maneiras.

Luísa said...

Acho que temos amigos comuns...desde Dalaila a João Menéres!
E eu, adoro os dois, por motivos muito diferentes!
Beijinho terno!

Dalaila said...

É verdade Luisa... o João é um grande amigo... e eu amei a festa, e amo que ele pertença à minha vida.

A ti minha linda Marta, adoro aniversários dos amigos, porque é sempre ocasião para nos irmos vendo