terça-feira, agosto 11

Pergunta-me


Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinza

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue


Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos


Pergunta-me

se te voltarei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas

e se eras tu

quem eu via

na infinita dispersão do meu ser

se eras tu

que reunias pedaços do meu poema

reconstruindo

a folha rasgada

na minha mão descrente


Qualquer coisa

Pergunta-me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

saibas o que te quero dizer


Mia Couto in Raiz de Orvalho e Outros Poemas, p. 29 e 30, Caminho, 2001
imagem: Google

13 Comments:

Funes, o memorioso said...

Mia Couto é o melhor prosador vivo de língua portuguesa. Pela amostra deste post, parece também ser candidato ao título de pior poeta vivo de língua portuguesa. Não digo simplesmente o pior poeta de língua portuguesa, porque, se contarmos também com os poetas mortos, ninguém consegue tirar esse lugar ao Torga.

entremares said...

O que queremos saber?
Se nos ouvem?
Se simplesmente... reparam em nós?
Já dei comigo por vezes a pensar como seria o som... se todos os nossos pensamentos fossem audíveis para todos.

Assustei-me com a ideia.
Já pensaste nisso?

Beijos.
Rolando

Teresa said...

Olá Marta
Eu gosto muito de Mia Couto, como de resto aprecio a literatura lusófona africana, que acho vigorosa e original.
E a imagem... faz-me lembrar "As pontes de Madison County", um filme belíssimo.
Bjs

Claudia Sousa Dias said...

e eu que tenho quatro livros delepara ler...
na fila de espera...


csd

TERESA SANTOS said...

Mia Couto é, essencialmente, um prosador e, um óptimo prosador. Acabei de ler o seu Jesusalém e fiquei maravilhada. A sua escrita revela um amadurecimento notável.
Não conheço qualquer poema dele mas de facto, este, é para esquecer.
Marta. Gostava de saber a data de 1ª. edição. Sabes? Caso saibas, por favor diz-me.
Abraço.

TERESA SANTOS said...

Marta, ainda voltei. Penso que se trata de uma compilação da década de 80, será?! A ser assim, percebe-se uma certa "inocência" de escrita, factor que hoje já não se compreende.

Abraço.

mfc said...

Quando amamos não paramos de interrogar...

Maria Emília said...

Mia Couto para além de escritor é um grande filósofo que desenha em letras os desejos das almas inquietas.
Um beijinho,
Maria Emília

Jorge Freitas Soares said...

Mia Couto é um dos meus escritores preferidos... tenho 3 livros dele para levar para as férias....

Fiquei na duvida, as fotografias são tuas?

Beijinho
Jorge

Zaclis Veiga said...

Interessante essa "coisa" do gostar ou não de um autor ou de um texto. Gosto de pensar na autonomia que as palavras ganham no momento que são percebidas por nós e que fazem com que o bom ou ruim estejam repletos daquele breve encontro de história particular.
Gosto desse poema que você me apresentou porque gosto desse breve momento da minha história e das conexões que com ele (poema) faço e me deixam feliz. Simples assim!?

pin gente said...

tantas são as vezes que ficamos sem resposta... mesmo sem diálogo. equívocos? talvez!


gosto de mia couto, obrigada!
abraço

ps - vim da alice

Luz said...

Adorei! É de ficar sem palavras, cortar a respiração!
Obrigada.

ElsaTL

sonja valentina said...

conversas "mudas", simples.
gostei!!!