quarta-feira, agosto 12

Por causa de um poema


[O que mais me custa, nesta matéria, é partilhar da opinião do Prof. Funes.

Acontece raras vezes. Felizmente.]

Mia Couto é um excelente prosador. Um prosador brilhante.Gosto da forma como os seus olhos captam. Aliás, gosto da forma como todos os seus sentidos sentem. Gosto da forma como imagina, inventa, cria. Da forma como burila tudo isto e mais sei lá o quê, até o escrever. Em prosa.

O poema que transcrevi data de Janeiro de 1981. E gosto do poema por razões irracionais. Razões que não são para aqui chamadas. Gosto e pronto. Desde 2001.

Gosto, ainda, porque gosto da ideia de Mia Couto ter cedido a republicar aquele livro de versos.

Gosto, também, porque em tom confessional, escreveu, assim, à entrada do livro:

«A edição original foi publicada em Maputo, em 1983. Rapidamente o livro se esgotou e tenho, ao longo deste tempo, recebido várias sugestões para o reeditar. Desde então, porém, a minha escrita derivou para outros universos e hoje sou um poeta cuja prosa é muito distante daquilo que se pode pressentir em Raiz de Orvalho. Eu próprio não me reconheço em muitos desses versos. Alguns não resistiram ao tempo, outros adoeceram de serem tão íntimos. Assim, ao aceder a publicar a minha poesia inicial eu senti que devia escolher apenas alguns dos poemas da primeira versão de Raiz de Orvalho. Acrescentei outros versos inéditos, todos eles datados da década de oitenta. Assumo estes versos como parte do meu percurso. Foi daqui que eu parti a desvendar outros terrenos. O que me liga a este livro não é apenas memória. Mas o reconhecimento de que, sem esta escrita, eu nunca experimentaria outras dimensões da palavra.»


Como todos sabemos, há escritores que começaram as suas incursões literárias pela poesia, outros pela prosa. Mas a tentação por um, por outro, ou mais géneros é quase inevitável. Podem ou não destacar-se mais num do que noutro. Raramente em todos.

E depois nenhum escritor brilhante, um dia, não escreveu algo que, aos olhos de outros, não mereça estar na constelação de escritos que os notabilizam.

Eu de literatura não percebo nada. Ou gosto ou não gosto. Ou gosto e sei perfeitamente que não gostaria, se apenas lesse o que estivesse lá escrito.

Até o meu Eça de Queirós, esse realista fracturante, escreveu umas melices que não lembrariam ao mais romântico dos Românticos. Até o meu venerando Agostinho da Silva escreveu uns versos que eu não reconheceria como seus. Porque lhe sei outra obra, outro pensamento.

Escrever é algo que passa, também, por rituais de passagem; por rituais iniciáticos. Por letras bambas, pueris. Letras comuns que nos mostram lugares e pessoas sem o não sei quê que os distingue e eleva. Assumir que se parte daí e que não se nasceu a escrever pérolas, em minha opinião, já faz de um escritor um grande Senhor. Como Mia Couto. Mia Couto é um grande senhor e um excelente escritor. Inventa, imagina, cria. E respeita e assume o que deixou para trás. Mesmo a poesia que tem muito pouca poesia. E, até, o que não tem poesia nenhuma.

5 Comments:

Funes, o memorioso said...

Estou desesperado e destroçado. É que tenho que concordar integralmente com o teor deste post. Do princípio ao fim.
Do princípio ao fim?
Bem, felizmente não. Suspeito que as melices de Eça de Queirós que não lembrariam ao mais romântico dos românticos constituem precisamente aquilo que faz de Eça de Queiroz um grande escritor. O "Suave Milagre", por exemplo, é um dos mais belos contos da literatura universal. Se fosse pelo inenarrável Crime do Padre Amaro, Eça merecia o esquecimento completo e definitivo.

mfc said...

E que texto!
Passei do texto de um para o texto de outra... sem dar por isso!

Claudia Sousa Dias said...

olha eu da humildade de Mia posso falar, tanto na escrita como pessoalmente. eé daquelas qualidades que fazem diferença nuimescritor que é realmente, grande...


bjs

Maggie said...

Mia Couto é, como dizes, um "grande senhor e um excelente escritor". E estaria tudo dito, mas apetece-me acrescentar que concordo plenamente que assumir o que possa ter escrito com menos qualidade só lhe confere maior grandeza como homem e como escritor.
Quanto ao poema em questão, pode não ser uma obra de arte da literatura, mas tb a mim me diz muito. Afinal, quando lemos um poema cada um de nós lê-o e sente-o de forma diferente (como o próprio Pessoa dizia num dos seus poemas, o do poeta fingidor).
Que Mia Couto continue a escrever o que a inspiração lhe conceder, para que tb nós desfrutemos dessas suas verdadeiras pérolas.

Bjs

Sonhadoremfulltime said...

Gosto de Mia Couto... e pronto!
Quem gosta desta loucara que é o jogo da escrita,das palavras já por si é um desafio.
E quem escreve quantas vezes nos deparamos no nosso rascunho com gigantescas barbaridades.
O prometido é devido... voltei.

Parabéns

JC