sexta-feira, novembro 12

Pergunta ao Pó


«E o milagre aconteceu. Foi assim: eu estava diante da janela do meu quarto, a observar um insecto que rastejava pelo parapeito. Eram três e um quarto de uma tarde de quinta-feira. Bateram à porta. Atendi e dei de caras com um dos estafetas da estação telegráfica. Assinei o recibo e sentei-me na cama, perguntado-me se o vinho teria finalmente levado o meu velho desta para melhor. O telegrama dizia o seguinte: Livro aceite contrato segue hoje. Hackmuth. E era tudo. Larguei a folha de papel, que caiu sobre o tapete. Estava estupefacto. Depois estendi-me no chão e comecei a beijar o telegrama. Rastejei para debaixo da cama e fiquei ali deitado. Já não precisava da luz do sol. Nem da terra, nem do céu. Deixei-me ficar ali simplesmente, tão feliz que nem me importaria de morrer. Nada mais me poderia acontecer. A minha vida estava completa.» (pp. 188)

Pergunta ao Pó [Ask the Dust], John Fante (Tradução de Rui Pires Cabral, Ed. Ahab)

Desviado daqui

1 Comment:

MCS said...

Este livro é maravilhoso. E ontem recebi como prenda "A Primavera há-de chegar, Bandini", lá, lá, lá...