Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio
e nesse silêncio profundo se esconde
minha intensa vontade de gritar.
Clarice Lispector
Sábado, Novembro 6
Dá-me a tua mão
imagem: Cile Bailey
Etiquetas: Clarice Lispector
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9 Comments:
De vez em quando temos que reler Clarice Lispector. É um bom tratamento para a alma, um bom refrigério para a mente. Ela não se esgota nunca, está sempre atualíssima dentro de nós!
Abraços.
Marta,
Clarice Lispector, para mim, é eterna. Uma lucidez e uma alma poética sem iguais. Uma capacidade de escrever aquilo que lhe vai dentro da alma. Uma sensibilidade, um sentimento profundos, em plena harmonia com a alma do mundo.
Sempre.
Beijos
Carla
Martinha,
Não sei se gosta ou não destes selos dos blogs, mas indiquei o seu blog para o Prêmio Dardos. Por tudo que li e ouvi e senti aqui.
Passa lá no meu pra pegar o selo!
Beijos
É bonito...e e verdade que no silêncio escondemos tantas vezes um grito.
~CC~
Clarice sempre maravilhosa! Esse ainda não conhecia. Obrigada Marta.
Bjs
´bonito
Adorei!
Cris
Quero ficar naquele espaço
entre duas notas
onde te compões…
naquele momento em que paras
para prosseguir
e os silêncios se ouvem,
num suspiro que canta
a nossa respiração contínua,
quero compor-me
nessa fracção de tempo
em que sou melodia
e tu partitura
onde coloco minhas mãos
para te tocar…
Muito inspirado, Senhor Poeta :)
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