sexta-feira, novembro 12

As tuas mãos cor de Outono

Estava a olhar para a fotografia e lembrei-me de ti, como se nela visse o teu rosto ou
o teu sorriso, até mesmo as tuas mãos cor de Outono.
Lembrei-me de ti a fazer um castelo com as claras de ovo. Naquela tarde, na cozinha, eu havia de aprender contigo o que eram árvores de folha caduca enquanto fazias o bolo que só tu sabias fazer de cor e salteado. Havia de ficar para sempre, na minha memória olfactiva, aquele cheirinho a bolo da avó Clotilde que, ainda hoje, me faz respirar fundo.
Era um bolo sem nome, enquanto não lhe demos o teu.
- Tenho de fazer uma redacção sobre o Outono, avó. Podias dizer-me coisas sobre o Outono.
E tu começaste a bater o bolo mais devagar, enquanto eu brincava com a lata pequenina do fermento Royal, fazendo-a rolar sobre a mesa.
Uma lata pequenina vermelha que tu abrias com a ajuda de uma colher de café.
-Deixas-me pôr o fermento, avó?
E tu disseste que sim, sem dizer que sim. Tu eras a pessoa que mais falava, sem falar.
- No Outono as árvores de folha caduca ficam sem folhas. Se fores ao quintal, reparas que há folhas na relva, no lago, nos canteiros. As árvores à volta do lago, são árvores de folha caduca, ao contrário das laranjeiras ou dos limoeiros.
No Outono, depois das vindimas, os dias ficam mais pequenos. E faz-se marmelada, porque os marmelos chegam com o Outono, assim como as castanhas. Cada estação do ano tem os seus frutos...
- E o que são árvores de folha caduca, avó?
- Ora vai ao quintal ver as árvores junto ao lago.
E eu saí a correr da cozinha, para ir ver a árvores como se nunca as tivesse visto. Como se não tivesse crescido com elas.
- Avó, junto ao lago tem pereiras e o pessegueiro mais ao lado.
- Exactamente. A pereira, o pessegueiro, o diospireiro, a macieira, a figueira, são árvores de folha caduca. Árvores que no Outono e no Inverno ficam sem folhas.

Quando cheguei à cozinha pousei algumas folhas sobre a mesa.
- Se escolheres as mais bonitas, podes po-las dentro de um livro. Secam protegidas. E vais poder guardá-las, como se guardasses as cores do Outono.
No dia seguinte, na escola, fiz uma redacção sobre folhas que caem e folhas que ficam para sempre nas árvores. Escrevi sobre frutos que chegam com o Outono, sobre dias pequenos que, afinal, ficam imensos. Escrevi sobre folhas que ficam dentro das folhas dos livros.
Como essa tarde de Outono ficou dentro de mim.
[porque , agora, me deu saudades da avó Clotilde lembrei-me deste texto que já havia publicado]

4 Comments:

sympathy for the devil said...

lovely image

João Menéres said...

Um texto maravilhosamente perene !
Não o conhecia, MARTA.
Mas, mesmo que um dia o tivesse lido, iria lê-lo todo de novo, tal a beleza que todo ele transmite.
Tal como o AMOR.

Um beijo.

Marta said...

Já o leu sim, João, o ano passado :)!
beijo

Anónimo said...

Até pude cheirar o bolo da tua avó. Bela recordação e tão simples.
Cris