sábado, novembro 20

o amor, como tudo na vida, obedece a uma técnica

Introdução
Não é o amor o resultado do impulso, de uma força súbita que parece ter raízes no fundo das entranhas e emerge, cega e desvairada, como a fúria de um vendaval?
Não é o amor a incarnação mesma da espontaneidade?
Não é o amor fogo que consome alma e corpo, que tudo corrói, numa cegueira que se não sabe de onde vem ou para onde vai?
Não é o amor fulguração e fascínio, fogueira de corações e arrebatamento de sentidos?

Seria tudo isso, é certo; assim o haviam cantado, pelo menos, os poetas, muitos deles do seu tempo, como Propércio, Tibulo, até mesmo, Virgílio, e outros antes dele, como Catulo. Seria tudo isso, sim; e, também submissão e entrega, prazer e prisão, escravatura e júbilo.
Contraditório, portanto, paradoxal.
Mas, se assim era, será que podia o amor ser ensinado, será que podiam amestrar-se os amantes, como quem se assenhoreasse, pouco a pouco, de uma técnica que permitisse, no fundo, aprisionar a prisão?
Ovídio, poeta latino do séc. I a.c., acreditava que sim.
Se muitos outros, antes dele, lograram servir-se da poesia para ensinar a cultivar os campos, como o poeta grego Hesíodo, ou a tratar da terra e dos animais, como o seu comtemporâneo Virgílio, ou, mesmo, a dominar a técnica de fazer versos, como esse outro poeta do seu tempo, Horácio, se tantos outros foram capazes de deitar mão da poesia para ensinar múltiplas artes, entendia Ovídio que também podia, ele que conhecia de perto o amor, ousar ensiná-lo. Porque acreditava, por convicção e experiência, diversa, por certo, das experiências dos outros poetas, que o amor, como tudo na vida, obedece a uma técnica e que essa técnica, como todas as técnicas, pode ser ensinada (e aprendida). Com proveito.
in Arte de Amar, Ovídio, pag.9, Livros Cotovia, 2006
Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André

imagem: Marc Chagall

3 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

aiai...vou ter de ler esse dele também...!


beijos

Carla Farinazzi said...

Sabe, Marta, eu tenho esse livro, comprei em São Paulo, uma edição de bolso. Mas nunca me animei a ler, não sei porque. Vamos ver se me animo, agora que li a introdução, graças a você. Depois te falo.

Beijo

Carla

Anónimo said...

Este Ovídio acha que vai ensinar a alguém a amar? Passou-se...tu não leias isso!!!!

P.