quarta-feira, novembro 17

Se os sentidos mudassem, a imagem mudaria


2. Admitamos o mundo tal como os nossos sentidos o revelam. Se fôssemos daltónicos, ignoraríamos algumas cores. Se tivéssemos nascido cegos, ignoraríamos as cores.
Há cores ultravioletas, que não captamos. Há silvos, que os cães ouvem, inaudíveis para o homem. Se os cães falassem, o seu idioma seria, talvez, pobre em indicações visuais, mas teria termos para indicar matizes de cheiros, que ignoramos. Um sentido especial adverte os peixes da mudança das pressões da água e da presença de rochas ou outros obstáculos profundos, quando nadam na noite. Não entendemos a orientação das aves migratórias, nem que sentido atrai as borboletas libertas em pontos distantes, numa grande cidade, e as quais o amor une. Todas as espécies animais que o mundo alberga vivem em mundos diferentes. Se olharmos através do microscópio a realidade varia: desaparece o mundo conhecido e este fragmento de matéria, que para o nosso olho é uno e está quieto, é plural e move-se. Não se pode afirmar que uma imagem seja mais verdadeira que a outra; ambas são interpretações de máquinas parecidas, graduadas de uma maneira diferente. O nosso mundo é uma síntese que os sentidos dão, o microscópio dá outra. Se os sentidos mudassem, a imagem mudaria. Podemos descrever o mundo como um conjunto de símbolos capazes de exprimir qualquer coisa; se alterarmos a graduação dos nossos sentidos, leremos outra palavra nesse alfabeto natural.
3. As células nervosas do homem são diferentes, de acordo com a diversidade dos sentidos. Mas há animais que vêem, que farejam, que tacteiam, que ouvem por um único órgão. Tudo começa na evolução de uma célula. A noir, E blanc, I rouge...não é uma afirmação absurda; é uma resposta improvisada. A correspondência entre os sons e as cores existe. A unidade essencial dos sentidos e das imagens, representações ou dados, existe e é uma alquimia capaz de converter a dor em deleite e as paredes da prisão em planícies de liberdade.

Adolfo Bioy Casares in Plano de Evasão, pag.111
tradução Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tentreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2007
imagem: Gilbert Garcin

5 Comments:

Funes, o memorioso said...

Adolfo Bioy Casares. Ora aqui está um autor que merece ser lido. Ou não fosse um dos grandes amigos de Jorges Luis Borges e seu parceiro na criação de Bustos Domeq

Funes, o memorioso said...

Melhor, na invenção de Bustos Domeq

Marta said...

Estamos pontualmente e desgraçadamente de acordo, Prof. Funes.

fallorca said...

Marta, o ano passado traduzi um livro fabuloso escrito a quatro mãos, por Sylvina Ocampo e o marido, Bioy Casares, que lhe deve ter passado despercebido:
«Quem ama, odoeia», col. Ovelha Negra, Oficina do Livro

Marta said...

Passou, sim, Fallorca!!!!
obrigada por ter feito referência. vou procurar.