quarta-feira, novembro 17

O Príncipe Feliz

Lá no cimo da cidade, numa coluna muito alta, estava a estátua do Príncipe Feliz. Estava coberto com finas folhas de ouro maciço, tinha duas brilhantes safiras como olhos e um enorme rubi vermelho brilhava no cabo da sua espada. Era realmente muito admirado.

— Ele é tão bonito como um catavento — comentou um dos Conselheiros da Cidade, que queria ganhar reputação por ter gostos artísticos. — Só que não é tão útil — acrescentou, temendo que pensassem que ele não era uma pessoa prática, e realmente não era.

— Porque é que tu não és como o Príncipe Feliz? — perguntou uma mãe sensível ao seu filhinho que estava a chorar pela lua. — O Príncipe Feliz nem sequer sonha em chorar por alguma coisa.

— Fico contente por saber que há alguém no mundo que é muito feliz — murmurou um homem desapontado, enquanto admirava a maravilhosa estátua.

— Ele parece mesmo um anjo! — disseram as crianças do asilo ao saírem da catedral, nas suas capas vermelho-escarlate e nos seus bibes muito brancos.

— Como é que sabem? — perguntou o Professor de Matemática. — Vocês nunca viram um anjo.

— Ah! já vimos, nos nossos sonhos — responderam as crianças. O Professor de Matemática franziu as sobrancelhas e olhou-as severamente, pois não aprovava sonhos de crianças.

Uma noite, voou sobre a cidade uma pequena Andorinha. As suas companheiras tinham voado para longe, para o Egipto, seis semanas antes, mas ela tinha ficado para trás, pois estava apaixonada por uma linda Cana. Tinham-se conhecido no início da Primavera, quando a Andorinha voava rio abaixo, atrás de uma mariposa amarela e sentiu-se tão atraída pela cintura estreita da Cana, que parou para falar com ela.

— Posso amar-te? — disse a Andorinha que gostava de ir directa ao assunto, e a Cana fez-lhe uma vénia. E assim, ela voou à sua volta, tocando a água com as asas e fazendo ondulações prateadas. Esta era a sua forma de fazer a corte e durou todo o Verão.
— É uma ligação ridícula — riam-se, trocistas, as outras Andorinhas. — Ela não tem dinheiro e conhece gente a mais.

E realmente o rio estava cheio de juncos. Depois veio o Outono e elas voaram para longe. Depois de elas partirem, a Andorinha sentiu-se sozinha, e começou a cansar-se da sua amada. «Ela não sabe conversar», disse a Andorinha, «e acho que é muito namoradeira, pois está sempre a namoriscar com o vento.» Realmente, quando o vento soprava, a Cana fazia os mais graciosos movimentos. «Aceito que ela seja caseira», continuou, «mas eu gosto de viajar, e a minha mulher também terá de gostar.»

— Vens comigo para longe daqui? — perguntou um dia à Cana; mas a Cana abanou a cabeça, pois estava muito ligada à sua casa.

— Tu tens estado a brincar comigo — gritou ela. — Eu vou-‑me embora para as Pirâmides. Adeus!

E foi-se embora. Voou durante todo o dia e à noite chegou a uma cidade. «Onde é que eu vou hospedar-me?» disse ela. «Espero que a cidade tenha feito os preparativos necessários.» Depois, viu a estátua ao alto da enorme coluna. «Vou hospedar-me ali», gritou ela. «É um óptimo lugar, com muito ar fresco.»
E, assim, pousou entre os pés do Príncipe Feliz.

«Tenho um quarto de ouro», disse ela para consigo, enquanto olhava em volta e se preparava para dormir; mas, quando estava a pôr a cabeça debaixo da asa, uma enorme gota de água caiu-lhe em cima. «Que coisa curiosa!» gritou ela. «Não há uma só nuvem no céu, as estrelas estão muito claras e brilhantes e, no entanto, está a chover. O clima do norte da Europa é realmente horrível.»

E então caiu outra gota. «Para que serve uma estátua se não consegue abrigar-me da chuva?» disse ela. «Tenho de procurar uma boa chaminé». E decidiu ir embora.

Mas ainda não tinha aberto as asas quando uma terceira gota caiu e ela olhou para cima e viu — Ah! O que é que ela viu? Os olhos do Príncipe Feliz estavam cheios de lágrimas e as lágrimas caíam pelas suas faces douradas. A sua cara era tão linda à luz da lua, que a pequena Andorinha ficou cheia de pena.

— Quem és tu? — disse ela.

— Eu sou o Príncipe Feliz.

— Mas então porque estás a chorar? — perguntou a Andorinha — Molhaste-me toda.

[...]

Oscar Wilde in o Príncipe Feliz e Outras Histórias

3 Comments:

Ricardo said...

Querida Marta,
tenho em casa uma edição muito muito antiga de Contos de Oscar Wilde, que comprei num alfarrabista aqui em Guimarães, ao lê-los descobri, já há alguns anos, que muitas das mais bonitas histórias da minha infância estavam nesse livro.
Se o termo "beleza triste" existe, está nesta como noutras destas histórias, tão tão bem escritas e imaginadas.
Poesia pura...

Beijinho

Marta said...

...existe sim, querido Ricardo...
beijinho

Claudia Sousa Dias said...

Historia linda. Maravilhosa. Uma das minhas preferidas, a par da da Pequena Sereia de H.C. Andersen.


beijos