domingo, novembro 14

O que Bach não escreveu

Como são os teus dias, a tua respiração no silêncio?
Agora, na memória despovoada, o teu sorriso é uma planície sem fim. Sem ti. Sem ti, está esta tarde de sol, como se os dias fossem todos contigo e eu não soubesse encher de música o espaço entre os dedos.
Como são os teus dias, o teu olhar no meu?
Sei que o fogo acende noites claras como luas, o fogo acorda sonhos altos, como plátanos e tudo acontece sem ti, tão perto do teu coração sem som, tão longe dos teus sentidos sem nome. Gostava de te sentir e que a luz inteira do teu corpo me ficasse na ponta dos dedos, para te ver sempre assim, mesmo quando não souber a cor exacta dos teus olhos demorados.
Corre um tempo imperfeito – de pérolas imperfeitas – como os meus dias sem ti; corre por ti um tempo, um compasso, qualquer coisa extraordinária que quase não vejo, mas guardo.
Como são os teus dias, as tuas mãos sem rosto?
Essa pauta em branco, essa partitura sem voz; esse dó transcrito, cadente.
Como são os teus dias, a tua paz sem regresso?
Sei a clareza dos teus gestos, a eternidade do indizível, mas não te sei inventar sem ritmo, sem pulso, sem toque. Para saber se o mundo se acende; para saber se o desejo é breve, preciso de saber como são os teus dias.
Como são os teus dias, a tua dor contra o meu peito?
A música, meu amor, é a fuga do silêncio que pouso nos teus lábios.

4 Comments:

cduxa said...

Bravo!

João Menéres said...

QUE TEXTO, MARTA !...

Lá chegará o dia em que te faço um desafio...


Um beijo.

Sininho said...

Genial! :)

Anónimo said...

Porra! Isto é mesmo lindo! e eu até sou durão, menina ou senhora, não sei, Marta!