terça-feira, outubro 27

folhas de outono


Estava a olhar para a fotografia e lembrei-me de ti, como se nela visse o teu rosto ou
o teu sorriso, até mesmo as tuas mãos cor de Outono.

Lembrei-me de ti a fazer um castelo com as claras de ovo. Naquela tarde, na cozinha, eu havia de aprender contigo o que eram árvores de folha caduca enquanto fazias o bolo que só tu sabias fazer de cor e salteado. Havia de ficar para sempre, na minha memória olfactiva, aquele cheirinho a bolo da avó Clotilde que, ainda hoje, me faz respirar fundo.
Era um bolo sem nome, enquanto não lhe demos o teu.

- Tenho de fazer uma redacção sobre o Outono, avó. Podias dizer-me coisas sobre o Outono.

E tu começaste a bater o bolo mais devagar, enquanto eu brincava com a lata pequenina do fermento Royal, fazendo-a rolar sobre a mesa.
Uma lata pequenina vermelha que tu abrias com a ajuda de uma colher de café.

-Deixas-me pôr o fermento, avó?

E tu disseste que sim, sem dizer que sim. Tu eras a pessoa que mais falava, sem falar.

- No Outono as árvores de folha caduca ficam sem folhas. Se fores ao quintal, reparas que há folhas na relva, no lago, nos canteiros. As árvores à volta do lago, são árvores de folha caduca, ao contrário das laranjeiras ou dos limoeiros.

No Outono, depois das vindimas, os dias ficam mais pequenos. E faz-se marmelada, porque os marmelos chegam com o Outono, assim como as castanhas. Cada estação do ano tem os seus frutos...

- E o que são árvores de folha caduca, avó?

- Ora vai ao quintal ver as árvores junto ao lago.

E eu saí a correr da cozinha, para ir ver a árvores como se nunca as tivesse visto. Como se não tivesse crescido com elas.

- Avó, junto ao lago tem pereiras e o pessegueiro mais ao lado.

- Exactamente. A pereira, o pessegueiro, o diospireiro, a macieira, a figueira, são árvores de folha caduca. Árvores que no Outono e no Inverno ficam sem folhas.

Quando cheguei à cozinha pousei algumas folhas sobre a mesa.

- Se escolheres as mais bonitas, podes po-las dentro de um livro. Secam protegidas. E vais poder guardá-las, como se guardasses as cores do Outono.

No dia seguinte, na escola, fiz uma redacção sobre folhas que caem e folhas que ficam para sempre nas árvores. Escrevi sobre frutos que chegam com o Outono, sobre dias pequenos que, afinal, ficam imensos. Escrevi sobre folhas que ficam dentro das folhas dos livros.
Como essa tarde de Outono ficou dentro de mim.


imagem: @ João Menéres


[este texto foi inspirado numa fotografia do João Menéres. Um desafio que aceitei com muito gosto. foi uma honra João, fazer esta parceria consigo :)
para quem ainda não conhece é favor visitarem o Senhor Dom GRIFO PLANANTE aqui é a arte de planar por aí... com sensibilidade e sabedoria... ao alcance de um clique...]

12 Comments:

TERESA SANTOS said...

Marta,
Li o teu texto, devagar, saborendo-o como se fosse eu a vivenciar cheiros e afectos.
Obrigada por partilhares vivências, por transmitires emoções, por seres alguém (mau grado através da blogosfera) de verdade.
Pela tua mão cheguei ao blog do João Meneres. Foi bom conhecê-lo.
Obrigada e um beijinho, Amiga.

Jorge Freitas Soares said...

Um belo texto Marta, gostei muito

Jorge

Anónimo said...

Tão simples, a dizer tanto e sem ser piegas, obrigada Marta.
«Eras a pessoa que mais falava, sem falar». Tu também, não conhecendo a tua voz, gosto muito de te ouvir falar aqui neste teu planeta que visito todos os dias.

PAS[Ç]SOS said...

Ainda ontem, ontem mesmo há pouco mais de doze horas, revelava as saudades dum texto assim. Com cheiro. Um texto onde se apanham folhas que caem da árvore da sensibilidade, que pincelam páginas em branco, que tomam as cores das estações, nos fazem encher o peito, soltar o ar que o ficou a apertar e voltar de novo ao início com a certeza de que se perdeu algo que valerá a pena recuperar.

João Menéres said...

MARTA

Muito bem sabe ESTAR no HÁ VIDA EM MARTA !
Foste muito amável em me possibilitares os teus Terrâqueos e convidá-los a visitarem-me.
A TERESA SANTOS já me deixou um comentário lá no ninho. Quem sabe se não se tornará minha SEGUIDORA...

A minha imagem fica aqui muito bem emoldurada e
fica em óptima casa com muito boas companhias !

Obrigado uma vez mais, MARTA.

Claudia Sousa Dias said...

ainda tens essa redacção?!

deve ser tão bela como oeste texto...

deste a beleza vem da nostalgia e da evocação...todas nos vemos a nossa avó a abrir a lata do fermento com a colher do café. mas só poderias ressuscitá-las desta forma.

A redacção da menina terá a candura da mulher que hoje escreve.

O impulso é o mesmo, a sensibilidade também. só olhar mudou. o Olhar da menina do casaco vermelho. e o olhar da mulher do coração rubro.

csd

TERESA SANTOS said...

Para que conste! Já sou seguidora do João Menéres.
Beijinho, Marta.

Voar sem Hasas said...

Marta,
As imagens têm esta capacidade, de nos fazer lembrar...
Recordaste as histórias da tua infância, e nós, através das tuas revivemos as nossas... porque há sempre algo em comum nas historias de infância....

escreves com a doçura das palvras doces,,, e nós gulosos, agradecemos....

Beijos aos pares,,, para ti e para o João

adevidacomedia said...

E há folhas que ficam para sempre entre as páginas abertas das nossas memórias mais doces. Lindo, mana!

Carlos Barbosa de Oliveira said...

Excelente! Fiz link lá no Rochedo, numa rubrica que iniciei hoje

Turmalina said...

Perfeito...
imediatamente lembrei-me das mãos já envelhecidas da minha avó, abrindo a latinha vermelha de pó royal, com o cabo da colher de café.Obrigada!

paulofski said...

Vim cá pelo cheiro do bolo! Ok, o Carlos deixou um pedaço lá no Rochedo e abriu-me o apetite. E assim cá vim deleitar-me com tão intensa leitura. Obrigada.