terça-feira, outubro 13

a fé e a dúvida


Uma vez, há muito tempo, quando para mim as coisas simples ainda eram todas óbvias e ver televisão nas tardes de domingo era quase inevitável, retive a frase, no meio de um filme, do qual não recordo o título: “a fé só existe, porque existe a dúvida”.
Foi assim que vi revista e aumentada, a minha lista de axiomas adolescentes.
Então, a fé e a dúvida, pensei, coexistirão infinitamente.
Numa idade especialmente fértil em dúvidas, temi tornar-me monja, asceta, sei lá.
Isto caso as dúvidas fossem proporcionais à fé, claro.
Desligada do filme que, para mim, tinha terminado ali, naquela frase, emaranhava-me nos meus pensamentos pueris e lineares, condicionada, evidentemente, pela minha educação católica. E por outras vertentes do meu processo de socialização em curso.
A dúvida é condição de fé. E ia moendo aquilo à minha maneira.
À maneira dos meus catorze anos.
E pensei nas cruzadas e nas missões. Nos auto manos e nos bizantinos, no Concílio de Clermont e nas barbas grisalhas do professor de história que nos estava a ensinar aquilo tudo. E nada daquilo me fez sentido (e pensei mesmo em ir tirar satisfações com o professor) pois não concebia encontrar alguém que não tivesse dúvidas. Nem cristãos nem muçulmanos. Nem ateus nem agnósticos. Ninguém. Todos com dúvidas. Alguns com fé.
Logo, se as dúvidas eram certas, mais cedo ou mais tarde todos achariam a tal fé.
Era só uma questão de paciência, de esperar pelo tempo certo...
Pensava assim, retida naquele axioma novo, acabado de adoptar.
E, mais tarde, perguntei à minha mãe se tinha dúvidas. E ela perguntou-me sobre quê. Sobre alguma coisa. E ela disse logo que não. Sem vacilar.
Fiquei de rastos, porque achei que ela deveria ter imensas dúvidas. Íamos todos à Eucaristia dominical e, naquele tempo, para mim, ir à missa era ter fé. E, agora, pela frase do filme, sinónimo de ter dúvidas.
Lembro-me de todos estes pensamentos cruzarem no meu cérebro como jactos.
E, no domingo seguinte, dentro da igreja, pus-me a pensar em quais seriam as dúvidas de toda aquela gente. Olhava-os, tentando descortinar as dúvidas que teriam. E se teriam tanta fé como dúvidas. Ou se teriam mais dúvidas do que fé. E se não tivessem dúvidas nenhumas, também não precisavam da fé para nada. Mas não devia ser bem assim, porque a minha mãe disse que não tinha dúvidas e estava lá. E a fé era ainda algo que eu não sabia definir. Eu entendia o que era ter dúvidas porque as tinha. E achava que quando rezava tinha fé. E, afinal, pareceu-me evidente que tinha fé porque tinha dúvidas. E que talvez rezasse para as deixar de ter.
De resto não achava mais nada. Nunca tinha experimentado as consequências de ter ou não ter fé. Mas já tinha levado com as consequências de ter ou não ter dúvidas. A Eucaristia tinha chegado ao fim e, foi por esta altura que dei comigo a pensar numa tribo imaginária onde ninguém tivesse dúvidas de nenhuma espécie.
E não fosse à missa nem a nenhuma outra celebração.
Não duvidar de nada, nem de ninguém. Não acreditar em nada nem em ninguém. Viver.
Aquilo agradou-me especialmente e, não fosse a igreja estar repleta de gente muito mais velha teria defendido, para mim, que as dúvidas tenderiam a desaparecer com o passar dos anos. Mas não. Era evidente que não.
À noite, no diário de bordo da minha adolescência, registei uma historieta intitulada «existir sem dúvidas», longe de imaginar o quanto esse relato me faria sorrir de mim e das minhas estapafúrdias deambulações.
Uns anos mais à frente, ainda no liceu, cruzei-me com os primeiros filósofos e, já na universidade, com Mercia Eliade, Santo Agostinho, entre outros.
Kierkegaard foi o mais cirúrgico a mexer, novamente, no assunto da fé e da dúvida. Obrigando-me a uma nova revisão dos meus postulados adolescentes, quase adultos. Ainda adolescente, li com certa angústia, O Desespero Humano e nunca mais optei por nada nem por ninguém, sem uma certa inquietação. Às vezes nem me mexia. Só para não optar. Não dava resultado.
Depois, Nietzsche também deu cabo de umas tantas auto-evidências da minha existência. Uns de uma forma, outros de outra, foram diversos os autores que pulverizaram o meu modus vivendi. Tal como acontece hoje. Nunca mais as certezas foram as mesmas. Tirando uma ou outra. Evidentemente. E as dúvidas somavam-se – somam-se – numa equação interminável.
- Mas responde-me, deixa-te dessas considerações, responde-me
dizia-me ela impaciente.
- Tens fé, Isabel?
- Às vezes caio. Deixo-me cair. E, lá em baixo, não há nada. Nada visível que me ampare a queda.
imagem: ⓒ M&M's

12 Comments:

Voar sem Hasas said...

Luisa...
"A dúvida é condição de fé..."
"... se as dúvidas eram certas, mais cedo ou mais tarde todos achariam a tal fé..."

Achei as interrogações dos teus 14 anos absolutamente legitimas...

Eu tenho dúvidas... agora. Como tu tb achava que mais tarde ou mais cedo acharia a fé... e tenho-a procurado, depois de perceber que não me bastava rezar ...

Amei o texto, revi-me nele

Anónimo said...

"Uns anos mais há frente, ainda no liceu (...)"

Neste caso, gralha seguramente, "há" é "à"...

Belos 14 anos...

Zaclis Veiga said...

A pergunta que ecoa em minha emnte é: será que há algo invisível que ampare a queda?

Luz said...

Gostei muito deste texto e, afinal quem não tem dúvidas!? Creio que faz parte da nossa condição, da nossa natureza. E que tal também ler Karl Rahner, isto se ainda não leu, mas é fundamental, além de fabuloso e muito concludente. No entanto, mantemos as nossa dúvidas..., mesmo com luz :)

Patti said...

Pois é Marta, eu cada vez tenho menos fé e cada vez mais dúvidas.

Marta said...

obrigada pela chamada de atenção. claro que é há sem h.

Anónimo said...

Nunca pensei nisso assim, muito menos aos 14 anos, Marta, mas parece-me agora óbvio: sem dúvidas, a fé para quem a tem, não faz sentido nenhum.


Leigo

Sonhadoremfulltime said...

Olá Marta,
à algum tempo que aqui não passava. O tempo não estica e não tive oportunidade.
Mas o vir hoje já valeu a pena.
Como sempre um texto de reflexão e que nos deixa a pensar.
Eu tenho tanta dúvida…

C. said...

Tenho fé que nunca deixarei de ter dúvidas. Como pode ser de outra maneira?

Desconfio sempre de quem tem muitas certezas acerca de tudo.

Claudia Sousa Dias said...

Faço coro com a C.

Lina Faria said...

Que bela reflexão. Que belo texto.

Citando o Rettamazzo:
"Só pela dúvida vale a vida. Duvida (interrogação)

Anónimo said...

Muito Bonito!!!
MB