Patrícia Reis
Memórias andadas
Até uma determinada fase da minha criancice, no gatinhar do meu imaginário, sapatilha era Sanjo.
Um par delas, brancas e inacessíveis, calcorreavam a vida e os dias claros nos pés do meu pai. Do regresso da rua, da peladinha ou do passeio domingueiro, parecia que nada lhes havia acontecido: eram arrumadas, quase imaculadas, na despensa lá de casa.
Quando me fiz menino, sapatilha continuou Sanjo.
Habituei-me a cobiçá-las, à espera de uma deixa paterna. Mas nem elas envelheciam nem os pés do meu cresciam. Uma pena.
Ele, desconfiado e cioso das suas roupas e calçado, passou a vigiar os meus atrevimentos e tentações.
Com paciência e cumplicidade materna, é verdade que vesti camisas, camisolas e até experimentei perfumes do meu pai, nas costas dele. Mas nunca o meu pé foi além do chinelo para alcançar as Sanjo.
Passaram-se anos, entretanto.
Ainda me lembro de ver o meu pai defender bolas impossíveis nas nossas jogatanas de fim-de-semana. Nos pés, as velhas Sanjo, quase novas, quase tudo, como se tivessem nascido com ele.
Herdei as Sanjo, com honra e parcimónia, poucos anos antes da morte do meu pai. Tinham atravessado os anos 80 e calcorreavam, senhoras de si, o início dos anos 90. Com buracos e cordões a desafiar vergonhas, ainda as usei um tempo, por um fio atadas.
Já não me lembro quando me desfiz delas.
Mas guardei, imaculadas, as memórias andadas.
Miguel Carvalho
Também tive umas Sanjo. Aliás, durante a adolescência não calcei outros ténis, pois estes eram os únicos que faziam parte da órbita de possibilidades nesses tempos de finanças apertadas e tão pouco cool de finais dos anos 70, inícios de 80, numa vilória algarvia. E entre os meus amigos, com raras excepções, a escolha em ténis ia, essencialmente, das Sanjo brancas até às Sanjo pretas. Éramos tão ignorantes de tudo o que é trendy que um amigo meu com propensão a efabular disse-me que a Sanjo era uma marca espanhola e eu acreditei (lembrem-se de que os inventores do Google tinham, por essa altura, uns seis anos). Nunca fiz a figura parva de pronunciar Sanjo com um “j” gutural, à castelhana, senão teria morrido de vergonha retrospectiva quando descobri, em 2010, que o nome vem de São João da Madeira.
José Carlos Fernandes
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6 Comments:
eu já não sou do tempo das anjo, sou das all star da converse, e lembro-me uma vez no comboio vinha de lisboa de um estágio da selecção nacional escolar, para o Porto, onde tinha os meus pais à minha espera, tinha eu 14, 15 anos, e vinha sozinha, se calhar, ou de certeza a primeira viagem de comboio sozinha que fazia, e um rapaz, mais velho, mas muito engraçado, meteu conversa comigo, a dizer... converse... e eu não o percebi, e ele disse-me com um sorriso nos lábios as tuas sapatilhas dizem converse, por isso vamos conversar... e assim foi, vim a conversar, graças às all star.
beijinhos amiga
Aqui no Brasil me lembra o "Conga", um tênis que todo mundo tinha, naqueles "tempos de finanças apertadas e tão pouco cool". Hoje vejo o Conga e meu peito aperta de saudade de um tempo que não volta mais...
Beijos, Marta
Carla
Que giro, tal como a Patrícia Reis eu também adorava andar de ténis e de vestido ou saia e a minha mãe não me deixava :) :) :)
Também pertenço a essa geração das memórias Sanjo e das All Star também.
bjo
Cris
Eu sou do tempo das SANJO!!!
Tive várias.
Brancas Azuis Marinho,e outras com várias cores.
Vantagem de ter um familiar muito próximno a trabalhar na SANJO.
Vou tentar arranjar umas fotos para te mostrar...
Bj
Eram bem porreiros, azulinhos, claro... O pior era a tendência para o «sulfato de peúga» ;)
eu cá tinha pé chato, não podia usar ténis, quando finalmenete aos 13 anos pude ter uns ténis lembro-me que eram sanjo, nessa noite dormi com eles à cabeçeira. Aos Sanjo e à felicidade que proporcionaram!!
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