quarta-feira, outubro 27

Faits divers femininos

As transições de estação do ano oferecem sempre uma passerele sui generis. No outono, por exemplo, as sandálias e as botas coabitam por aí, em perfeita desarmonia. Umas com imensa vontade de calçar botas, outras com imensa relutância em tirar sandálias. Então, botas e sandálias, sapatos abertos e fechados, sedas, lãs e afins, alcinhas, meias mangas e mangas compridas, cachecóis, lenços e decotes, carteiras e sacos de praia, meias e pernas ao léu, convivem alegremente por estes dias híbridos.

Por esta altura, a minha mãe e a minha irmã, começam a dizer, dia sim, dia também que não têm nada para vestir nem calçar. Apesar de a minha mãe ser, há muitos anos, uma forte concorrente da Imelda Marcos e a minha irmã ter sempre vestidos que, por acaso, só por acaso
- ah este! já não me lembrava dele!
Nesta matéria, a minha mãe e a minha irmã são muito parecidas e, ainda bem, pois seria um deserto para a minha mãe ter outra filha como eu. Deus foi justo. A minha mãe, senhora de entrar religiosamente, três dias por semana, no cabeleireiro não podia ficar com uma única filha que, em bom rigor, não tem paciência para lá ir. (quando inventarem secadores silenciosos...) Era de uma crueldade atroz. Portanto, elas unem-se contra as minhas "manias". Unem-se contra a minha ignorância sobre coisas da moda e nomes de marcas, por exemplo. Sei as básicas, obviamente. Mas exasperam-se quando tentam falar comigo sobre esse complexo universo, mais hermético do que linguagem médica. Divertem-se quando vamos às compras. Pois se é verem-me de cabelos em pé, eu a pedir, por exemplo, um certo modelo de calças, mas em castanho, por favor, e responderem-me, indignados, mas os castanhos não se usam este ano, menina. Ora entramos em colisão frontal, pois entramos. Então, se me impingem uma "corzita da moda" e insistem, cheias de pena, para que desista do castanho e, ainda, me aconselham a mudar rapidamente de estilo... é que eu fico fora de mim.
A minha irmã - há dias fui jantar a casa dela - disse-me, feliz, depois vou mostrar-te o meu relógio novo, xpto. Eu olhei para ela como se o relógio fosse um Swatch. Ela olhou para mim como se eu fosse demente e balbuciou: da mesma marca daqueles teus brincos...?! E eu perguntei-lhe se ela tinha a certeza de que os meus brincos eram xpto, que eu nem sequer sabia pronunciar o que ela tinha dito! E ela disse: desisto, desisto. É impossível conversar contigo sobre estas coisas... é uma seca, na verdade.
E foi buscar mais uns queijos. Que de queijos e vinhos eu sempre percebo mais.
(E agora que saudades da minha mãe e da minha irmã, a implicarem com a minha "cara lavada". Não é por serem a minha mãe e a minha irmã mas são tão lindas. Lindas todos os dias, a parecer que acabaram de sair de uma caixa de música. Foi só um parêntesis)
Está um sol frio mas acolhedor. Estou de botas e de casaco. Um casaco que já não vestia desde o Outono passado. Ainda não meti as mãos nos bolsos. Ainda não encontrei qualquer coisa que me tenha esquecido de um ano para o outro. Gosto de me esquecer de coisas nos bolsos dos casacos e encontrá-las um ano depois. Às vezes, um ano depois, voltamos a sorrir.

12 Comments:

fallorca said...

«Gosto de me esquecer de coisas nos bolsos dos casacos e encontrá-las um ano depois.»
Sim, sim... ;)

sem-se-ver said...

olhe... somos duas :))

(da parte da moda e marcas e tal)

sem-se-ver said...

(e da cara lavada também)

Marta said...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo said...

Conheço-te há anos e realmente usas as mesmas cores, o mesmo cabelo, a mesma aversão ao cabeleireiro...isso porque não tens brancas nem pintas o cabelo, se não estavas lá mais vezes LOLOLO
Mas falta-te confessar que percebes de botas, brincos, chapéus...andas de cara lavada andas, mas sempre com muita "pinta" amiga.
bjo
Cris

Carla said...

Tu é que és linda! Uns dias mais que outros, é verdade. Tal e qual a Julia Roberts.
Ja agora, o relogio não sera um Pequignet?

Marta said...

pois é fallorca, gosto mesmo de encontrar coisas nos bolsos :)


enfim, sem-se-ver, não podemos saber de tudo! ...e maquilhagem dá uma trabalheira ;) por outro lado,tem a vantagem de quando pomos um rimelzito ou um batom,repararem logo que estamos bonitas :)

também, Cris, quem não tem as suas fraquezas? ;)


tu não existes mana LINDA...:) :) :) foi mesmo bom ver-te aqui, agora...tanto tanto tanto.

Anónimo said...

Vês.
Eu não digo!?!?!
Porque é que pões textos de outros autores?
Deve ser para "nós" vermos/lermos a diferença!!!
Esperta!!!!
Vá lá, tira um dos livros da gaveta...
Bj

Zaclis Veiga said...

ai minha amiga
acho que só você para imaginar a confusão que está o meu gurada-roupa por conta dessa "mania" de atravessar o mar.
Fazer malas para o inverno quando o termômetro está perto dos 40 graus... Ou então colocar as regatas na mala estando tremendo de frio dentro do pulôver mais grosso que possuo.

Não consigo pensar direito nas combinações e acabo por juntar roxos e verdes e vermelhos e azuis...
e ainda tenho que lutar contra o desejo daquela sandalhinha vermelha que teima em pular dentro da mala de inverno e que com sua lógica de sandalha faz muxoxo: vai que faz um dia de sol...
:)

Marta said...

o importante é que atravesses o atlãntico. os braços estão abertos.
o coração, é como sabes :)

Woman Once a Bird said...

Gostei tanto deste post.

Marta said...

fico contente por teres gostado, WOB :)