sábado, outubro 9

O farol

A neblina sobre a retina não me permitia distinguir as fronteiras do coração. No entanto, aprumava o leme com a confiança de um dia claro, sol de meio dia. Enganava-me na inútil certeza dos arrogantes.
Finalmente, a temida chuva veio. De início, tímida como uma criança em seu primeiro dia de aula. Não sabia se me molhava ou misturava-se ao mar revolto. Por fim, cansada de bordear-me pelos flancos, tomou-me inteiramente de assalto. Veio com a força das potestades. Parecia querer arrancar-me do leme. Minhas mãos, após longas horas de aflição, pareciam não mais querer corresponder ao que eu lhes dizia. Temiam no pior frio que se possa enfrentar numa situação dessa. Arranhavam-se no frio do medo. O escuro jazia entre um raio e outro a rasgar noturnas Billie Holidays. A pequena embarcação era menor que meu corpo. Tudo que não era tempestade, tormenta, tinha uma dimensão não superlativa. A vela era tragada pelas vagas como se fosse um fino lenço de cambraia a querer enxugar as lágrimas de uma enchente do Amazonas.


Carlos Eduardo Leal
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1 Comment:

Anónimo said...

Gostei muito do texto, pois nem parece sobre morte.
Cris