segunda-feira, outubro 25

Sabes, como eu

Sabes, como eu. Mas sabem mais os teus passos do que os meus. Porque são mais. São há mais tempo e mais firmes do que os meus. Sabes, como eu, a importância de caminhar à noite, porque a noite não tem fundo. E caminhar com a linha do horizonte no olhar dói. E custa menos um tecto de estrelas caladas do que um céu sem azul. E sabem mais as tuas dúvidas sobre o mundo do que a história da loucura de Foucault. Sabes, como eu, a delicadeza de ir pela berma da alma, devagar, como se o caminho fosse seda e lâmina. Sabes, como eu, a dignidade de avançar contra a solidão da casa distante que há dentro de nós. E sabes, como eu, o sabor da luz na noite quieta. Sabes a cautela de andar cá dentro sem acordar a memória. E sabes a dor de nunca mais poder abraçar. E a mim doi-me a dor de não o poder fazer. Ainda que os braços estejam aqui.

[para a P.]
imagem: Henri Cartier-Bresson