sábado, outubro 30

Au contrair, a vida é drama, a vida é acção...


- Uma carta! Outra carta! O que é isto, um jogo de xadrez postal? Dois dias para as notícias chegarem à Marijana, dois dias para a resposta dela chegar: havemos todos de expirar de aborrecimento antes de termos uma resolução. Não estamos na era do romance epistolar, Paul. Vá ter com ela! Confronte-a! Faça uma cena como deve ser! Bata o pé (falo metaforicamente)! Grite! Diga: «Não estou para ser tratado desta maneira!». É assim que as pessoas normais se comportam, pessoas como a Marijana e o Miroslav. A vida não é uma troca de notas diplomáticas. Au contraire, a vida é drama, a vida é acção, acção e paixão! Você, com o seu passado francês, sabe-o decerto. Seja cortês se quiser, a cortesia não faz mal nenhum, mas não à custa das paixões. Pense no teatro francês. Pense em Racine. Não se pode ser mais francês do que Racine. Racine não são pessoas abatidas, sentadas pelos cantos a maquinar e a calcular. Racine é confrontação, uma grande tirada a opor-se a outra.

Estará ela com febre? O que terá provocado esta explosão?

- Se há lugar no mundo para o Bálsamo de Friar - diz ele - , há lugar para cartas antiquadas. Pelo menos, se uma carta não soa bem, pode-se rasgar e começar de novo. Ao contrário da fala. Ao contrário das explosões de paixão, que são irrevogáveis.

Se há pessoa que devesse ter isso em conta, é você.

- Eu?

- Sim, você. Com certeza não escrevinha a primeira coisa que lhe vem à cabeça e a envia a de imediato ao seu editor. Espera com certeza para pensar melhor. Revê tudo, com certeza. Não é em pensar melhor que consiste a escrita - pensar melhor uma vez, duas vezes, três vezes, e mais vezes ainda?

- É isso, efectivamente. É isso que a escrita é: pensar melhor elevado à enésima potência. [...]
J. M. Coetzze in Homem Lento, pag. 254, Dom Quixote, 2008
[tradução de J. Teixeira de Aguilar]

imagem: Gilbert Garcin

1 Comment:

fallorca said...

Não perca (se ainda não leu) «Verão»