sábado, outubro 23

África Raiz I


África,
no teu corpo rugem feras,
uivam fomes e medos ancestrais,
no teu sangue há marés,
na tua pele há dardos e punhais.

Ventre de Continentes,
és mater e matriz.
Ásia é semente, Europa é flor,
outros serão essência ou tronco,
tu, África, és raiz.

Dos teus flancos de fémea fecundada,
nascem florestas, rios e montanhas.

Florestas venenosas de gigantes,
de monstros, de ciclopes vegetais,
de fungos, de landólfias e de orquídeas,
onde pastam manadas de elefantes,
onde flores carnívoras,
sob um céu baixo, de invisíveis brasas,
sugam antenas e digerem asas.


Fios de água, que vertes das entranhas
e te rasgam a pele
como pontas de lança,
como lâminas de aço,
prendendo, laço a laço,
matas, capim, tarrafe, canaviais.

Cascatas, cachoeiras,
furiosos caudais
saltando precipícios,
arrastando pirogas, crocodilos,
abrindo a golpes de água
os leitos abissais
dos Zambezes, dos Congos e dos Nilos.

Montanhas como dorsos de mamute,
gargantas de titans, abismos de nebelina,
e na crosta rugosa a lepra das florestas,
as pegadas do vento,
as aves de rapina.
Presença subterrânea
de lavas e de chamas,
de vulcões em potência,
ressonância, rumores
dos rios interiores,
promessas de esmeraldas, de rubis,
de metais raros,
Kilimanjaros
nos roxos da distância.
[...]

Fernanda de Castro in África Raíz
imagem digitalizada do livro: Teresa Vergani
[este poema , por ser muito extenso será publicado em partes.
mereceu os segintes comentários:
"...é o poema do século!" José Carlos Ary dos Santos
"...soube entender até ao âmago, até à raiz, a alma secreta do continente africano" David Mourão Fereira
"...é um poema extraordinário... Que força expressional e consecutiva, que fôlgo sem desfalecimento, que altura sem vertigens, que beleza sem interrupções..." Ferreira de Castro
faltam-me, agora, palavras de gratidão para Alberto Quadros (irmão da autora) que, conhecendo-me apenas do blog - e sendo, seguramente, o leitor mais sénior - teve a imensa generosidade de me oferecer este livro magnífico. e raro. um abraço imenso]

2 Comments:

João Menéres said...

Que FORÇA e BELEZA não tem este POEMA ÉPICO!

Não conhecia, não senhor.

Obrigado, MARTA !!!

Quanto ao presente : Só quem MERECE MESMO recebe JÓIAS assim!

Um beijo.

Gi said...

O prometido é devido e aqui estou eu a lê-lo.
Não queres publicá-lo lá na página 2DA MINHA JANELA VEJO ÁFRICA"?
A Gi agradece.