domingo, outubro 24

História do Beijo

Do beija-mão ao enlace amoroso, há muitas formas de beijos, uns dados à toa, "quase" inocentes, outros mais solenes, mais carregados de promessas. Mas, voláteis ou apaixonados, ternos ou simplesmente corteses, todos assinalam a dado momento o estado de uma relação entre duas pessoas. Todos revelam até que ponto pertencemos a uma sociedade e aos seus costumes. A determinado tempo e lugar.
Yannick Carré, Sinal de Paz, Símbolo de amor



Sinal de estima, de amizade, de afeição, o beijo na boca ocupa desde a Antiguidade um lugar nos ritos de saudação. Mas é sobretudo na Idade Média, nos séculos XI e XII, que adquire um significado público com a homenagem vassálica ou aquando das cerimónias de ordenação de padres. Essencialmente masculino e elitista, tem então o valor de um selo, de pacto indissolúvel. Ratifica solenemente a entrada numa comunidade.
Jean Claude Bologne, Do Sagrado ao Íntimo



A partir do Renacimento, o beijo irá perdendo pouco a pouco a sua função oficial e sagrada. Torna-se um gesto de ternura que toca, mas não compromete. Entre pessoas de categorias diferentes, entre parentes e amigos, passou-se a usar o encostar a face, ao passo que o beijo na boca, reservado aos amantes, assume, esse, uma conotação muito mais erótica.
Já não coroa uma relação, inicia-a, abre a festa amorosa.
David le Breton, Ritos de Intimidade



Como pintar ou esculpir uma sucessão de formas e de gestos que se fecha inexoravelmente em si mesma? Sim, como evocar visualmente o que antes do mais pertence à ordem do paladar, da consistência, da humidade, do calor, da intimidade? Neste sentido, um beijo é um desafio permanente para um artista, como se a sua representação só fosse possível à custa de devorar a própria representação...
Truffaut/Hitchcock, Jogo de Lábios




Em francês, a palavra baiser designa tanto a oferta de uns lábios como o próprio acto de amor. Como se o substantivo fosse apenas o prelúdio ao verbo, mas sem um prelúdio mais casto, mais poético e, por isso mesmo, mais próprio para exprimir os matizes dos sentimentos. Talvez seja por isso que pintores, romancistas, cineastas sempre se empenharam em pôr em cena o beijo, transformando assim um gesto efémero e frágil numa sumptuosa festa dos sentidos.
Gérald Cahen in História do Beijo, Teorema

imagem: Jindrich Strei


6 Comments:

Anónimo said...

Isto é muito interessante, Marta... Tens de me emprestar o livro...
bjo, bom Domingo
...E do final da tarde também gostas que eu sei :)
Cris

Bípede Falante said...

Adorei as definições, mas amo mesmo são os beijos ! :)

Anónimo said...

O melhor sobre um beijo que já li, foi escrito por ti.
xxx

sem-se-ver said...

o beijo é um abraço dado com a boca.





(continua a ser, para mim, a sua melhor definição. sinceramente, não sei onde a li, nem de quem é.)

Carla Farinazzi said...

Beijar é tudo de bom! Como disse o Drummond,
"O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar."

Beijos

Carla

alberto quadros said...

sobre o beijo,aquela quadra dum autor desconhecido
Ainda há-de nascer o sábio
Que diga qual a razão
Que um beijo dado nos lábios
Vai direito ao coração
Um abraço, Marta.Os blogueiros continuam ganhando muito com a sua colaboração ! A.Quadros