quarta-feira, outubro 6

Fora isso, tudo é tal como antes

É importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte. O morrer não é um processo ininterrupto. Se a gente tem saúde e se sente bem, é um processo invisível. O final que é uma certeza nem sempre se anuncia de maneira espalhafatosa. Não, você não consegue entender. A única coisa que você entende a respeito dos velhos quando você não é velho é que eles foram marcados pelo tempo. Mas compreender isso só tem efeito de fixá-los no tempo deles, e assim você não não compreende nada. Para aqueles que ainda não foram velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida esté em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua sendo imortal enquanto vive.
Philip Roth in O Animal Agonizante, Companhia das Letras, 2001
e aqui

1 Comment:

Carla Farinazzi said...

Marta, que texto lindo. Obrigada por compartilhá-lo... Tenho vontade de ler Phillip Roth já há algum tempo, desde que a Companhia das Letras promoveu um debate entre fãs dele e do Roberto Bolaño, que estou lendo agora. E muita gente boa prefere Roth a Bolaño. Então fiquei com muita vontade de lê-lo... Imagine agora com esse trecho que você me apresentou, tão profundo e lindo.

Beijos

Carla