terça-feira, outubro 19

Que menino se recusou já a brincar num sotão...


Que menino se recusou já a brincar num sótão, a inventar inexistência?
Está-se fora do mundo, numa torre inacessível, as pessoas crescidas ficam longe, com as suas ocup...ações, ideias, hábitos incompreensíveis.
Aqui é o reino da fantasia, da realidade indescoberta.
Vêem-se as traves e as telhas do avesso, com teias de aranha, e há umas lucarnas pequeninas, muito engraçadas, viradas para o céu azul, o sol, o silêncio, às vezes o pio dum pássaro, uma paz de eternidade.
Assim, no cheiro de palha, de mofo e clandestinidade, de pó e madeira tostada de sol, entre murmúrios de palavras proibidas, gestos rituais de descobrimento, e acres emanações de suor infantil, pode-se ser feliz ou infeliz à vontade, e, apesar da carne ainda insensível, ir aprendendo os segredos do ser, que exalta e que dói.

José Rodrigues Miguéis in a Escola do Paraíso

7 Comments:

Carla Farinazzi said...

Marta

Preciso sempre terminar minha noite com o seu ótimo "A noite pede música"...

Obrigada por tudo isso.

Carla

Claudia Sousa Dias said...

a sério? mas a versão que eu li não tinha esta passagem...


csd

Anónimo said...

Eu sempre quis ter um sotão para brincar e nunca tive!!!
Cris

Sonhos & melodias said...

Não tive sotão mas tive porão. E adorava ficar escondida lá onde criava um mundinho mágico e à parte do mundo real. Adoro isso!
Bjs

Marta said...

CSD: já retirei a referência ao conto para não confundir. tens razão...baralhava.
[era eu com sono :)]

fallorca said...

Sim, quem? Até crescido e bem crescido, há 2 anos, quatro meses numas águas-furtadas de província ;)
Quanto ao Miguéis, é sempre BOM lembrar e revelar

Marta said...

fallorca, que confissão mais...sei lá...gostei :)

pois é...Miguéis escreve tão bem. digo eu, só porque gosto muito de o ler. as primeiras letras que lhe li, Arroz do Céu, um conto de que gostei bastante. e, depois, fui por aí fora.