quarta-feira, outubro 27

A última palavra

A vida não é uma linha na qual você escreve todos os nomes que você encontra no meio do caminho. A vida é feita principalmente das palavras interrompidas, daquelas que ficaram por dizer, ou ainda daquelas que a gente nunca soube como escrever. A vida é feita dos intervalos, principalmente através deles, dos capítulos censurados, das lembranças não vividas e das memórias apagadas.

Carlos Eduardo Leal in A última Palavra, Editora Rocco, 2009

[Carlos, não imagina como os seus livros chegaram, afinal, na hora certa. Este, começo a lê-lo hoje. Estou-lhe imensamente grata. As minhas outras palavras ficam para depois da leitura...]

sábado, outubro 9

O farol

A neblina sobre a retina não me permitia distinguir as fronteiras do coração. No entanto, aprumava o leme com a confiança de um dia claro, sol de meio dia. Enganava-me na inútil certeza dos arrogantes.
Finalmente, a temida chuva veio. De início, tímida como uma criança em seu primeiro dia de aula. Não sabia se me molhava ou misturava-se ao mar revolto. Por fim, cansada de bordear-me pelos flancos, tomou-me inteiramente de assalto. Veio com a força das potestades. Parecia querer arrancar-me do leme. Minhas mãos, após longas horas de aflição, pareciam não mais querer corresponder ao que eu lhes dizia. Temiam no pior frio que se possa enfrentar numa situação dessa. Arranhavam-se no frio do medo. O escuro jazia entre um raio e outro a rasgar noturnas Billie Holidays. A pequena embarcação era menor que meu corpo. Tudo que não era tempestade, tormenta, tinha uma dimensão não superlativa. A vela era tragada pelas vagas como se fosse um fino lenço de cambraia a querer enxugar as lágrimas de uma enchente do Amazonas.


Carlos Eduardo Leal
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