quinta-feira, fevereiro 26

Do jornalismo... hoje


«Chegou ao jornalismo em 1972, entrou no Diário de Notícias em 1977. A Controlinveste quer dispensá-lo. Nos últimos cinco anos, pelo menos 180 jornalistas perderam o emprego na área de influência do Porto. Está em marcha um "processo de desertificação" na área dos media».



É este o lead que nos faz avançar com avidez para a prosa de Ana Cristina Pereira. A jornalista entrevistou o jornalista Alfredo Mendes «Despedido num minuto e meio - dois minutos, vá lá».

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«Até à década de 90, trabalhar no DN foi "exaltante". Com a saída do PÚBLICO, concorrente directo, o diário "começou a perder identidade. Depois, "entrou numa estratégia de ziguezague: quer ser tudo»

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«Não era o único jornalista do pacote. Dentro dos 122 profissionais que a Controlinveste quer dispensar, estão 75 jornalistas - do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias, do 24 Horas, d`Jogo e de outras pequenas publicações: 54 na zona de influência do Porto. Motivos avançados: "Desequilíbrio económico-financeiro num mercado em queda", "necessidade de reestruturar a empresa, nomeadamente eliminando postos de trabalho redundantes e adequando o nível de recursos humanos à actividade desenvolvida e à evolução tecnológica".

Pelo mundo inteiro a imprensa tem perdido leitores. Em tempo de crise, o investimento em publicidade, é um dos primeiros a ressentir-se, como refere o director do centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, Manuel Pinto. E a publicidade é "vital" para a viabilidade dos media".

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«Dos importantes títulos de imprensa do Norte, mantém-se hoje, como seu baluarte e com um forte enraizamento social, o Jornal de Notícias, lembra Carlos Lage, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. O comércio do Porto morreu em 2005 (...) e o Primeiro de Janeiro transformou-se numa caricatura do que era (32 jornalistas despedidos em Agosto de 2008).

Nos últimos cinco anos, pelo menos 180 jornalistas da área de influência do Porto perderam o emprego (...) o ano passado o Expresso dispensou dois; há dois anos o Público, dispensou 11 - o que implicou acabar com as delegações em Braga, em Aveiro e em Vila Real.

Estará o Norte a tornar-se irrelevante? "Não, o Porto, o Norte, não é irrelevante. O Porto e o Norte estão é a merecer pouca atenção dos media", reponde o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia. "Todo o Portugal real - que tem a ver com as regiões, com as localidades - está".

No final dos anos 80, havia uma dinâmica de descentralização, lembra Joaquim Fidalgo. Depois, o país recuou. Se cairmos de pára-quedas numa reunião de autarcas e outras personalidades, veremos como isso é verbalizado. O centro de todas as decisões está em Lisboa, resume Armindo Abreu, presidente da Câmara de Amarante.

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Este "processo de desertificação", na opinião de Carlos Lage, "deve suscitar preocupação e ponderação". "Não existem sociedades sem espaço público, nem vontades ou destinos colectivos, sem voz. Uma informação pública construída a partir de uma base social ou geográfica única é tão inaceitável e danosa como a que é construída por um código ideológico e de opinião exclusivista", diz.

Haverá muito quem ache que a "informação está tão disponível, que há tantas agências, tanta Net, que não é preciso ter jornalistas onde as coisas acontecem", admite Fidalgo. Mas a tecnologia não substitui o contacto com as pessoas". Não se pode "fazer adequada cobertura à distancia". Alfredo Mendes não podia estar mais de acordo: "Como é que os jornais podem ser uma alternativa à televisão, à Internet? Fazendo o jornalismo de "rabo-sentado", seguindo a grelha da televisão, indo à Internet? Estão a basear-se demasiado na Internet. Não há ligação ao público. Vão a Nova Iorque buscar ideias, mas não vão à Praça da Liberdade, à Avenida dos Aliados».

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Não será fácil recomeçar aos 53 anos: "Aumenta a esperança média de vida e um jornalista com mais de 40 anos é para abater".

Proliferam cursos de Comunicação Social. Todos os anos, centenas de jovens tentam entrar na profissão. Alfredo Mendes desanima perante o que chama "estratégia chinesa": "Em vez de se ter profissionais com experiência, com qualidade, nos quadros das empresas, tem-se estagiários a trabalhar à borla. E sai um jornalismo padronizado, sem memória, sem génio e sem arte. E as redacções transformam-se em espaços frios, tristes".


[a entrevista pode ser lida na íntegra no PÚBLICO de hoje. O rapaz da mercearia, ali do lado - a quem roubei o jornal - já me tinha dito. «Ela escreve...» e escreve. Eu, para ler, coloquei o coração no bolso. Que faz frio. apesar do sol. é que ler tão bem escrito, o que está tão mal feito, dói ainda mais. obrigada Ana Cristina Pereira. digo eu, entre parêntesis.]







3 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

o jornalismo está em vias de se tornar uma profissão não remunerada. que o digam os profissonais de voluntariado que se dedicam regular a amorosamente à actividade anos a fio...

no entanto as pessoas não compramo jornal por causa da publicidade...


csd

Anónimo said...

Mas pelos vistos vendem-se mais jornais do que o ano passado.
Sim, mas também pode ser por causa da procura de emprego.
Mais aqui.
http://abcdoppm.blogs.sapo.pt/68371.html

CA said...

São as vitimas da ansiedade que os directores de jornais revelam pela jovem atitude predatória face a figuras públicas, mexericos de "afamados" (melhor que "famosos", estes têm fama, aos outros deram-lhes fama), árbitros de futebol, bancos e crises "económicas".
Sempre detestei o pessimismo nacional, mas este momento é mau demais.